A “estabilização” socratiana do desemprego

O IEFP divulgou em 23/07/2009 os dados relativos ao desemprego registado em 30 de Junho de 2009. E logo o seu presidente, na linha do discurso oficial do governo, veio dizer que o desemprego tinha “estabilizado”. No entanto, não explicou como é que tinha conseguido obter essa “estabilização do desemprego

Entre 1 de Janeiro de 2009 e 30 de Junho de 2009, inscreveram-se nos Centros de Emprego 359.563 desempregados, que somados aos 416.005 que existiam em 1 de Janeiro de 2009 dão 775.568. Durante os seis primeiros meses de 2009, os Centros de Emprego arranjaram trabalho para apenas 28.921 desempregados. Se se deduzir este número (28.921) aos 775.568 obtém 746.647. Era este o número total de desempregados que devia existir em 30 de Junho de 2009. No entanto, o IEFP divulgou que o número de desempregados inscritos nos Centros de Emprego no fim de Junho de 2009 era apenas de 489.820 desempregados. É evidente que este “milagre” foi conseguido através da eliminação de 256.827 desempregados dos ficheiros dos Centros de Emprego.

Os dados do Instituto de Emprego e Formação Profissional também revelam que se tem verificado um aumento significativo do número de desempregados que estão a ser eliminados dos ficheiros dos Centros de Emprego. Nos dois primeiros meses de 2009 foram eliminados dos ficheiros dos Centros de Emprego 34.932 desempregados por mês, enquanto nos últimos quatro meses (de Março a Junho) já foram eliminados 46.740 desempregados por mês, ou seja, verificou-se um aumento de 33,8%. Se se comparar o número de desempregados eliminados mensalmente dos ficheiros com o número de desempregados que se inscrevem mensalmente nos Centros de Emprego também se verifica anomalias que não têm sido esclarecidas. Em Janeiro de 2009, o número de desempregados eliminados correspondeu a 48,6% do número de desempregados que se inscreveram nesse mês nos Centros de Emprego; em Fevereiro o número de eliminados já correspondeu a 59%; em Março a 78,2%; em Maio a 94,1% e, em Junho de 2009, o número de desempregados eliminados dos ficheiros correspondeu a 88,2% do número de desempregados que se inscreveram nesse mês. Portanto, este número, no 1º semestre de 2009, flutuou entre 48,6% e 94,1% devido a razões que o IEFP se tem recusado a divulgar mensalmente.

Em 25 de Maio de 2009, num debate realizado na TV, em que participamos, confrontamos directamente o presidente do IEFP com esta situação. Francisco Madelino, irritado e perdendo o controlo, acabou por apresentar as seguinte razões relativamente aos 535.656 desempregados que tinham sido eliminados dos ficheiros dos Centros de Emprego durante o ano de 2008: 24,6% tinham sido eliminados porque eles próprios tinham arranjado emprego (auto-colocação); 51,5% tinham sido eliminados porque não tinham respondido à notificação (carta) enviada pelo IEFP; 2,5% porque se tinham reformado; 5,6% porque estavam em acções de formação profissional; 2,8% porque tinham emigrado; 3,4% porque participavam em iniciativas de emprego; 8,7% por “outras razões” que não especificou. É grave e ao mesmo tempo esclarecedor da forma como é obtida a “estabilização do desemprego registado” que 51,5% dos desempregados eliminados dos ficheiros dos Centros do Emprego tenham sido porque não responderam a uma carta (notificação) enviada pelos Centros de Emprego, carta essa que nem sequer é registada (a CGTP propôs que a carta fosse registada e o presidente do IEFP recusou). Os comentários parecem desnecessários.

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por Blogue da Emigração Publicado em 1 Com as etiquetas

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