A intoxicação linguística – Traços do discurso capitalista

Com base num livro de Vicente Romano, uma tradução de Rui Pereira e pontuais correcções da equipa deste blogue, pretendemos abordar a manipulação da lingua enquanto ferramenta fundamental nos diferentes âmbitos.

Numa série de oito capítulos, pretendemos denunciar diversos aspectos que poderão servir para a  identificação do carácter manipulador da mensagem “tipo” capitalista.  

1. A Economia dos Sinais

A expansão da indústria da comunicação tem por objectivo alcançar da forma mais rápida possível, através dos mais amplos espaços possível, o maior número de pessoas possível. Os gastos técnicos da mensagem individual reduzem-se na proporção em que o maior número de receptores possível se encontre conectado à rede. O telespectador crê que escolhe, quando prime um botão do televisor ou quando compra um jornal. Mas o que está, de facto, a escolher é a sua ligação a um sistema heterodeterminado.

Este é o princípio da economia de sinais, princípio presente em todo o percurso de desenvolvimento dos meios de comunicação desde os primórdios da cultura até hoje. Deve ter-se isto em conta no momento de analisar o desenvolvimento tecnológico. A técnica dos meios de comunicação segue este princípio sem instrumentação artificial, i.e., na comunicação primária ou de contacto humano elementar, como o segue com instrumentação no iniciador da comunicação, os denominados meios secundários, como continua a segui-lo com equipamentos de emissão e recepção, ou seja, na comunicação de meios terciários. Assim, os satélites de TV só têm sentido se houver gente suficiente que compre os aparelhos necessários à recepção da mensagem difundida por satélite. Daí que se torne necessário fazer propaganda para que milhares de milhões de potenciais receptores comprem os aparelhos que permitirão realizar os ganhos de investimento dos promotores e exploradores dos satélites. Este é o fundo de toda a argumentação encomiástica que se faz hoje em dia ao futuro dos meios de comunicação: criar um público que lhes traga tempo e dinheiro e pô-lo à disposição dos proprietários das novas tecnologias. As contas da economia de sinais só saem bem se um grande número de consumidores reduz o custo de exploração do meio por mensagem individual.

A economia dos sinais aplica-se quando uma só mensagem se distribui para muitos. Quando alguém quer dirigir-se a outras pessoas, costuma reuni-las à sua volta. Quer dizer, faz com que outras pessoas entreguem o seu preciso e irrecuperável biotempo subjectivo de forma a que quem as reúne não tenha de andar atrás de cada uma delas, o que custaria muito biotempo ao comunicador. Ao fazer com que outros venham até ele, poupa gastos de transmissão da mensagem.

A redução dos gastos de sinais é a origem de todas as reuniões, desde os almoços de família e pequenos grupos, até à Assembleia Popular ou às Cortes. Mas esta poupança só se realiza quando os outros acorrem. Toda a gente sabe que quando se dissolve a mesa familiar, quando os filhos faltam, ou o pai ou a mãe, é a instituição familiar que se desfaz. O mesmo acontece quando a secção local de um partido já não consegue organizar nenhuma reunião, porque os seus membros ficam em casa. Quem perdeu o poder de convocatória carece de poder, pois o começo do poder de um homem sobre outro reside em que um disponha do biotempo do outro. Quem comparece reconhece um motivo, esteja ou não de acordo com o que se comunica, simplesmente em virtude do tempo que entrega.

Ao reflectir sobre os meios de comunicação do presente e do futuro, cada um deve ter claro quanto do seu precioso biotempo quer dedicar a tais meios ou, melhor dito, aos seus proprietários e até que ponto está disposto a hipotecar-se-lhes, a pagar-lhes, uma vez que eles exercem sobre ele o seu poder.

A economia de sinais é uma questão de poder. O poder de uns seres humanos sobre outros começa com a apreensão do biotempo subjectivo de outros para as mensagens do comunicador. Assim, o lactente tem poder sobre a sua mãe, os professores sobre os seus alunos, o conferencista sobre o auditório, o escritor e editor sobre os seus leitores, o chorrilho permanente da tele e radiodifusão sobre a vida sentimental do país, o Estado sobre os seus cidadãos ao obrigá-los a preencher impressos, a economia sobre os consumidores através dos reclames publicitários e assim sucessivamente. Não é suficiente uma busca da doutrinação mediante textos concretos. Ela subjaz, desde logo, na distracção, na exclusão de outras comunicações que não podem ser recebidas ao mesmo tempo em que ela se faz receber. A percepção selecciona, mas não pode seleccionar entre aquilo que não lhe chega. Esta condição converte a distracção numa importante táctica de informação no conjunto da capacidade repressora dos grandes poderes sociais.

A economia de sinais e a coacção dos prazos regulam a programação da imprensa e da teledifusão e radiodifusão com o controlo das tiragens e das quotas de audiência.

 
por Vicente Romano

Catedrático de Comunicação Audiovisual (jubilado em 2005) da Universidade de Sevilha, doutorado pela Universidade Complutense de Madrid e doutorado cum laude pela Universidade de Münster, autor de “A formação da mentalidade submissa” .

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2 comentários a “A intoxicação linguística – Traços do discurso capitalista

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