A intoxicação linguística

3. Traços do discurso jornalístico actual

O jornalismo, a comunicação pública, traduz os sucessos e acontecimentos em sistemas de signos específicos dos meios de comunicação. O conceito de “media” é um bom exemplo de troca linguística. Hoje em dia, utiliza-se como abreviatura de meios de comunicação e, nos últimos anos, converteu-se em termo comum na designação da imprensa e tele e radiodifusão, em expressões como “educação para os media”, “crítica dos media”, “política dos media”, etc. No auge, porém, dos interesses parapsicológicos das décadas de 1920 e 30, “médium” era uma designação habitual para a pessoa que intermediava e transmitia fenómenos ocultos. E é até possível que este lastro de sentido ainda se estenda à discussão contemporânea dos “media” quando, por exemplo, os políticos repreendem os “media” pela transmissão de fenómenos das suas restritas esferas de poder que eles próprios não quereriam ver ou, pelo menos, não quereriam vê-los difundidos.

Aquilo a que costuma chamar-se linguagem mediática corresponde ao uso que fazem da linguagem aqueles que, normalmente anónimos, operam a manobra dos meios de comunicação.

Observa-se, na actualidade, como os meios ‘públicos’ adaptam a sua linguagem à dos ‘privados’, imediatizando os prazos das suas emissões cognitivas em benefício das compensações emocionais. A divisa reza: ‘small talk’, isto é, ‘conversa fiada’, falar de trivialidades.

A imprensa, a rádio e a televisão baseiam-se na repetição. A melhor ilustração desta circunstância é o ritual da televisão, uma vez que requer a visão e a audição, forçando os espectadores à postura sentada, enquanto a rádio e a imprensa lhe permitem liberdade de movimentos. Esta porque pode suspender-se e retomar-se noutro momento, a rádio porque a recepção da sua mensagem depende apenas do ouvido. Do ponto de vista da transmissão, a rádio é o meio mais rápido. As suas mensagens podem difundir-se praticamente a qualquer momento e, com a ajuda da telefonia, em praticamente todos os lugares.

Também aqui, porém, o império dos prazos e da imediaticidade existe, elaborado a partir do ritual horário e de calendário que o interpreta, à semelhança do que sucede com os outros meios. E, onde há interpretação há clero, quer seja religioso quer profano. É ele quem decide o que pode ouvir-se, ler-se ou ver-se a que dias e a que horas. Actualmente, pode observar-se como a televisão estatal se molda e inclusivamente antecipa a concorrência comercial da televisão privada, desbragando a linguagem e reduzindo os programas de conteúdo cognitivo em favor das compensações emocionais ou, pelo menos, atirando-os para horas de escassa audiência.

A minuciosa coacção dos prazos educa para a fugacidade da percepção. A brecha entre o electronicamente perceptível e o que fica registado em papel aumenta dia a dia. É preciso questionar se aquilo que os olhos vêem é fiável, pois desde Aristóteles que se acredita que ver é saber. A redução sucessiva da linguagem transformada num mero código de sinais ominosos, aumenta, claro está, a velocidade da transmissão. Mas a comunicação à velocidade de relâmpago de insinuações binárias, de símbolos positivos e negativos, não passa de um código que nada tem já a ver com a pugna pela expressão humana através da linguagem.

Os meios visuais regem-se, na cultura actual, pelas condições básicas demarcadas pelo rectângulo. O que se coloca dentro e fora, acima e abaixo, à direita e à esquerda decide o juízo de valor dos jornalistas. Entender a linguagem da imprensa e da televisão significa compreender os prazos rituais da programação e da sua colocação enquanto expressão intencional, desejada.

A economia de sinais e a coacção dos prazos regulam a programação da imprensa e da tele e radiodifusão. Não se deve esperar dos meios de comunicação jornalística a expressão perfeita. Mas isso não significa que tenha de aceitar-se todo o tipo de sucedâneos de conceitos depurados como pasto espiritual do povo. Se a crítica consciente de muitos pequenos grupos de acção não toma a palavra face às grandes burocracias comunicacionais e lhes contradiz a linguagem, o regresso a uma simbologia colectiva dirigida por poderes anónimos e sem mandato, bem como a idiotização colectiva tornar-se-ão inevitáveis.

A pressão dos prazos conduz à redução, ao estereótipo, à economia de sinais, à produção de «miniaturas simbólicas temporalmente consumíveis» (Pross). As novas técnicas, ou pelo menos o uso que delas se faz, reforçam e aumentam os estereótipos.

Engana-se quem supõe que percebe melhor o mundo mediante este jornalismo de grandes títulos. Nenhum meio de comunicação pode anular a reflexão, mas pode, sim, deslocá-la e confundi-la através da emocionalização.

No actual estádio dos novos meios de comunicação, a tele e radiodifusão encarregar-se-á de que ninguém consiga atingir já os níveis de concentração requeridos para compreender uma sucessão de frases. Os receptores, como se disse, são educados na fugacidade da percepção. Com a maior diversidade das ofertas audiovisuais, aquilo que se incrementa é a comunicação reducionista à custa do discurso linguístico.

Os efeitos psicofísicos de longo prazo continuam por investigar. Mas, o que parece saber-se, no actual estado do conhecimento, é que, por exemplo, os políticos terão de adaptar-se cada vez mais, nas suas disputas eleitorais, às imagens validadas pelos estereótipos da publicidade comercial e da indústria do entretenimento. A formação da consciência e da vontade política, cada vez mais complexa em virtude do aumento global das informações, reduz-se, paradoxalmente e em simultâneo, com a comunicação estereotipada que apresenta os dados da realidade, a consciência e essa vontade política de formar cada vez mais simplista e menos diferenciada. Desse modo, tem necessariamente que aumentar a discrepância entre o povo e os seus delegados, em vez de se reduzir por via da comunicação recíproca, dialógica, mutuamente enriquecedora. Temos numerosos exemplos desta redução mágica em política e na comunicação social: quando a análise da realidade política é substituída pelo grito ou pelo slogan, quando os sinais identitários de um partido são remetidos para os seus símbolos em vez de se demarcarem pela sua prática transformadora, quando se toma por opinião pública aquilo que é a opinião publicada de uns poucos, ou quando se toma por realidade aquilo que não passa da versão interessada que dela dão esses poucos.

No âmbito da imprensa, a hiper-abundância de publicações de entretenimento e distracção (a chamada imprensa do coração, por exemplo), face à escassez de diários políticos (imprensa de compromisso político e partidário) não conduziu à ampliação do espectro de opiniões, mas antes ao incremento dos estereótipos sociais criados por um punhado de donos do mercado. A televisão, por seu lado, não é uma visão à distância, no sentido de uns binóculos ou de um telescópio, capaz de reforçar a percepção da realidade. Os meios audiovisuais e as novas tecnologias facilitaram enormemente o controlo e o acesso de uns poucos a milhões e milhões de pessoas. A democracia supostamente trazida por esta técnica resume-se ao consumo milionário de técnica. Pois são estes milhões que, mediante o gasto financeiro na aquisição de equipamentos e o gasto em biotempo investido no consumo de emissões socialmente ritualizadas permitem a redução dos custos na economia de sinais para a minoria de produtores de comunicação.

Na linguagem, a metáfora, enquanto imagem linguística, também reduz o discurso. A imagem linguística pode facilitar a compreensão, mas não contribui em nada para a explicação uma vez que a representação imagética, gráfica, introduz outro modo de representação. “Vê-se” o que “o navio do Estado” quer dizer, mas a imagem nada diz acerca do Estado, apenas transporta o receptor para uma representação (gráfica) do Estado.

Outro tanto se passa com a “aldeia global” ou “o meio é a mensagem” e demais metáforas mais ou menos correntes, de Marshall McLuhan. A redução diminui crescentemente o gasto de sinais. Expressar-se com brevidade significa deixar coisas de fora, descontextualizar a informação. Ora isso não significa que essas coisas, relações, contradições, etc., deixem de existir, mas apenas que são suprimidas da comunicação. Ao mesmo tempo, quando se comunica alguma coisa, essa coisa adquire um significado e uma relevância que não coincidem com os que tem por si mesma, mas são, antes, aqueles significado e relevância que se lhe atribui. Como se sabe, toda a informação é selectiva e interessada.

Acossada pela necessidade de encontrar a expressão mais adequada, a linguagem recorre à imagem. Ao apresentar linguisticamente uma imagem, a metáfora reduz momentaneamente o simbolismo discursivo da linguagem à “apresentação integral simultânea” (Langer, 1982) que caracteriza a imagem. Diminui o gasto com a procura da expressão. A metáfora poupa energia ao reduzir as explicações a uma imagem linguística. Deste modo, poupa também tempo de emissão e papel, suportes materiais da expressão. A metáfora é uma expressão da economia de sinais. Isto explica a sua omnipresença na imprensa e na tele e radiodifusão.

Pode, então, dizer-se que quanto mais curta e estereotipada for a comunicação, tanto maiores serão a violência simbólica e o poder mágico dos seus meios, e tanto menor será o significado que pode construir para si próprio o sujeito receptor.

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por Blogue da Emigração Publicado em 1

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