A intoxicação linguística

4. O pensamento mágico

A produção industrial de comunicação está relacionada com as normas da técnica, outro dos traços distintivos da magia. Como o resto das indústrias, produz-se em série, de forma estandardizada.

A linguagem jornalística, os livros de estilo, os formatos e géneros, os jornais radiofónicos e televisivos, as séries, etc. confirmam esta produção estereotipada e uniforme.

A comunicação estandardizada elimina a distância crítica entre o seu consumidor e o respectivo meio envolvente, obstrui a reflexão necessária para o seu conhecimento e domínio. Daí que reforce o poder da minoria produtora, ao ocultar contradições e conflitos, ao suprimir a diferença entre imaginação e percepção, desejo e satisfação, imagem e coisa.

A sociedade produtora e consumidora de comunicações simplificadas e estandardizadas é uma sociedade de necessidades insatisfeitas. Tal sociedade revela-se presa fácil dos interesses de pequenos grupos produtores. O argumento racional da simplificação técnica baseia-se na superioridade distribuidora de uma pequena minoria, expressa pelo facto de que é a gigantesca maioria que vinha ao seu encontro.

A mediação realizada pelos “meios de comunicação de massas” é, portanto, unificadora e indiferenciada. Para viver e agir, o Homem precisa de ordenar os seus conhecimentos num quadro geral de referência que lhes dê sentido. Tanto na sociedade primitiva como na sociedade industrializada, o Homem deve prefigurar o seu mundo e construir o seu modelo de universo. Caso o modelo seja racional, o conhecido será obtido através da diferenciação e da sistematização. Mas se carece de um modelo racional, como ocorre no pensamento mágico, aquilo que se reafirma é a imagem homogeneizada do universo onde homens e estados de coisas interagem sem saber porquê e sem conhecer as suas relações.

As diferenciações estabelecidas pelo pensamento racional sobrepõem-se, assim, à indiferenciação primitiva, ao conhecimento infantil. Na era da técnica e da especialização o pensamento indiferenciado, mágico, é uma forma de integração dos “vazios” e das carências afectivas da vida quotidiana, criados pela fragmentação do conhecimento e das relações sociais. Baseando-se no princípio de que a técnica e a ciência são omnipotentes, surge a crença de que se pode ficar a saber através dos meios de comunicação, de que se pode conhecer o mundo por intermédio do consumo assíduo de comunicações mediadas e mediatizadas. Ora, quanto mais numerosas as informações recebidas pelo sujeito individual, quanto mais complexas as redes da mediação social, tanto mais provável se torna que esse sujeito venha a encontrar-se sobrecarregado enquanto “recipiente” e colocado perante a impossibilidade de processar essas informações no quadro da sua experiência pessoal. Ou, até, de singularizar o seu pensamento para si mesmo, distanciamento que estabeleceria a premissa da diferenciação. Onde a reflexão se torna impossível, o mundo recebido deve considerar-se como “a realidade”. A autenticidade da percepção difusa e diluída no meio técnico faz com que a imagem televisiva ou o texto de imprensa sejam a coisa mesma. O “essencial” é tê-lo ouvido, visto ou lido na rádio, na televisão ou no jornal. Prometem-se, assim, informações e conhecimentos. Mas, salvo a previsão meteorológica, útil para o passeio de domingo, o que se transmite só muito raramente é convertível à prática directa da vida.

A fé na informação dilui-se em muitas notícias que se esquecem um par de horas depois e com as quais o receptor não sabe o que fazer, porque não está em condições de compreender a sua origem, o seu alcance ou significado. Quanto maior é a fé na informação, mais profundamente dogmático é o retorno ao mito. Os défices racionais compensam-se emocionalmente.

O culto da informação pode traduzir-se facilmente pelo culto do poder e da força. Por último, a fé na informação produziu a inexacta impressão de que a imprensa, a rádio, a televisão ou o cinema são meios de informação e de comunicação. Contudo, se medidos pelo seu volume de produção, os meios de comunicação servem sobretudo a publicidade comercial e o entretenimento. A imprensa cor-de-rosa é muito mais numerosa do que a informativa, a rádio é acima de tudo um instrumento musical e a televisão uma longa-metragem transmitida em casa. Como se sabe, compra-se o vídeo para ver ainda mais filmes e mais televisão. A sua utilidade não consiste em reduzir a ignorância, mas em preencher temporal e ficticiamente os défices emocionais pela distracção, para matar o tempo.

 A consciência indiferenciada corresponde à vida sentimental estereotipada. O pensamento indiferenciado cria uma consciência conformista. Isto significa depositar em mãos alheias a solução dos problemas próprios, com o que isso representa de possibilidade de manipulação. Aí reside o perigo de entregar as rédeas dos assuntos pessoais às mãos dos especialistas ou do novo clero académico. Autodeterminação significa, acima de tudo, libertação da angústia.

 A reprodução da vida em dados e informações não é suficiente. O homenzinho perdido na massa talvez possa interessar-se pelos dados em que pode decompor o mundo. Mas nunca deixará de procurar uma imagem através da qual possa recompô-lo e que lhe sirva para se identificar com o seu meio envolvente e suprir as suas carências afectivas. Por isso a imagem substitui a informação, o pensamento indiviso a reflexão, e a mitologia do poder, o pensamento crítico. Onde o mito impera, o culto ocupa o centro das atenções, do culto da personalidade ao culto sentado da televisão.

O pensamento mágico é o antídoto da inteligência, cuja acção corrosiva poderia até destruir a coesão social por via do seu espírito crítico. A concepção da realidade como o pior inimigo do Homem e, por conseguinte, a exploração da “ilusão redentora” converteu-se, desde há muito, na máxima da indústria do entretenimento. Os sentimentos foram transformados em mercadoria rentável. Assim, como a consciência é o resultado da acção e da experiência, há que criar outras condições sociais de vida e de trabalho que permitam ao Homem enriquecer-se com as suas experiências pessoais e não permitir nenhuma “exploração da alma” por poderes alheios.

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por Blogue da Emigração Publicado em Política

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