A intoxicação linguística

5. O modo indicativo e imperativo

O modo directo do discurso é o indicativo e o imperativo. É a palavra que, como dizia Marcuse, “induz a agir, comprar e aceitar”. Tudo isso se transmite com um estilo conciso, com uma sintaxe comprimida e condensada, que impede o desenvolvimento do verdadeiro significado. Não admite contradições, nem matizes. A definição fechada dos conceitos perverte de tal modo o discurso que pode chegar ao resultado de que, em nome da liberdade de expressão, se bombardeiem jornais e emissoras de rádio e televisão, ou que à guerra se chame paz e às suas vítimas “danos colaterais”. As guerras criminosas contra a Jugoslávia, o Afeganistão, o Iraque, o Líbano podem servir de exemplo desta perversão da linguagem. Dentro desta lógica da razão pervertida, os negócios da guerra, a sua destruição para todos, os interesses particulares daqueles que enriquecem com a devastação e a morte, são assimiladas às vantagens da paz e aos interesses gerais do bem comum.

As proposições desta linguagem indiferenciada, mágica, são simultaneamente intimidatórias e glorificadoras. São as formas de ordens sugestivas, mais evocativas do que demonstrativas. Trata-se do discurso hipnótico do reclame publicitário, ou da brutalidade imperativa do “quero, posso e mando”, se o caso assim o exigir. É a linguagem unidimensional que visa criar o homem unidimensional.

O uso tão frequente de abreviaturas (NATO, ONU, UE, etc.) evita perguntas indesejadas. Assim, NATO não sugere o mesmo que Organização do Tratado do Atlântico Norte. Porque, neste caso, haveria que perguntar o que fazem aí países como a Turquia, a Grécia ou a Itália que nada têm a ver com o Atlântico Norte, ou haveria ainda que saber por que se encontram estas tropas a defender os interesses dos consórcios petrolíferos norte-americanos na Ásia Central.

O discurso fechado apresenta a realidade em termos dicotómicos, de bons e maus. Não demonstra, nem explica, visa apenas o controlo, reduzindo a imagens simplificadoras as formas e os símbolos da reflexão, a abstracção, a contradição e a dialéctica da realidade social complexa. E mesmo que as pessoas não acreditem nessa linguagem, ou não se importem com ela, acabam no entanto, por agir em conformidade com ela, segundo as suas prescrições.

 Enquanto os meios de comunicação empregam cada vez mais o indicativo na vida pública, na vida privada as pessoas questionam-se diariamente sobre como seria se… Isto tem a ver com o imperativo da expressão curta e com a brevidade da transmissão técnica. A informação televisiva reforça esta tendência. Uma imagem mostra aquilo que exibe. A linguagem deve explicar o significado plural das coisas, a relatividade dos conceitos. Mas, por razões de tempo e espaço, não permite nenhum conjuntivo ou condicional, nenhuma subordinação. A olhadela fugaz aos pequenos símbolos compensa-se com as ilusões que podem ser obtidas pela Internet no interior do próprio covil. Mas isto não proporciona nenhuma certeza. Caso se pretenda obtê-la, há que verificar por meios próprios, na interacção com a realidade e com os outros seres humanos, no diálogo enriquecedor.

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por Blogue da Emigração Publicado em Política

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