“Eppur si muove!” – Greves metalúrgicas no Brasil (1)

Notícias recentemente publicadas na Imprensa, a propósito das greves dos metalúrgicos nas regiões de São Paulo e de Curitiba (Paraná), em luta por aumentos salariais, forneciam dados muito interessantes para quem, como é o caso do autor, buscam conhecer mais e melhor a realidade brasileira, particularmente o seu proletariado.

Os números, pela sua dimensão, impressionam. As greves, complementadas com manifestações nas ruas das cidades e concentrações frente às empresas, mobilizam muitos milhares de operários. Na região de São Paulo, pelo menos, 14 mil trabalhadores de três empresas montadoras de veículos automóveis – Ford, Mercedes-benz, e Scania – além de outras empresas de auto-peças. No interior de São Paulo, 8.300 0perários da GM, de São José dos Campos; em Taubaté, 7.200 operários da Volkswagen e da Ford, e 2.000 metalúrgicos de auto-peças; em S. Bernardo, a Toyota, bem como autopeças de Diadema – Autometal, TRW e Delga. No Paraná, 2.600 trabalhadores da Volvo, na capital Curitiba, cerca de 5.000 trabalhadores da Renault-Nissan e 3.500 da Volkswagen-Audi.

O patronato, como é seu hábito, ou não divulga as consequências da greve na produção ou minimiza-as. São os casos da Ford e da Mercedes-Benz. Nesta última, são produzidos em média 220 veículos – 60% são caminhões e 40% autocarros. Segundo o Sindicato dos Metalúrgicos responsável pela convocação da greve na Scania, entre as 7 e as 9h deixaram de ser produzidos 12 caminhões, sendo a produção diária 43 unidades, em média; na Renault-Nissan e na Volkswagen-Audi, em oito dias de paralizações, as duas montadoras deixaram de produzir 8.600 veículos.

As reivindicações de aumentos de salários, variam entre os 10% e os 14,65%, com índices menores para os trabalhadores que recebem acima de 6.000 reais. Reivindicam mais um abono, que varia entre 1.450 e 2.000 reais. Os salários médios andam em torno dos 4.800 reais pagos pelas montadoras e 3.500 reais pelas empresas de autopeças. Ao câmbio actual (1 euro/2,65 reais), são salários equivalentes a, respectivamente, cerca de 1.800 e 1.700 euros. Entretanto, no Brasil, com um serviço público de saúde um pouco pior que o existente em Portugal, são frequentes os planos de saúde (privados) que as empresas “pagam”, bem como subsídios de alimentação e transportes, o que eleva substancialmente aqueles montantes.

Nalguns casos, os sindicatos já acordaram com as empresas, geralmente um pouco abaixo dos valores reivindicados. Parados desde o dia 4, os metalúrgicos da Renault conseguiram 8,65% de correção salarial a serem pagos ainda em setembro, além de um abono de R$ 2 mil. No cálculo estão incluídos 100% do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), 3% de aumento real, além da efetivação de 1% de correção que tinha sido prometida na negociação do ano passado. Na Volvo, a paralisação comprometeu apenas um dia de trabalho – segundo o sindicato, o prejuízo foi de 24 chassis de ônibus e três chassis de caminhões. Os trabalhadores conseguiram incorporar ao salário o INPC e 3% de aumento real, totalizando um índice de 7,57%, e um abono de R$ 2 mil. Além disso, foi-lhes garantido estabilidade no emprego até o mês de dezembro (!?) e um piso salarial de R$ 1.381,66. Os dias parados não serão descontados nas duas montadoras e vão compor o banco de horas.

E aqui entramos numa outra parte da realidade, o sindicalismo brasileiro. Estes Sindicatos são filiados maioritariamente na CUT (de orientação PT). Exemplo das suas práticas co-gestionárias e de traição foi a sua recente assinatura, em conjunto com a Força Sindical, a UGT e a CGTB, de um acordo com o governo que, sem consulta aos interessados directos e imediatos, visa “esvaziar” a luta em curso dos aposentados brasileiros, que reivindicam aumentos reais nas pensões (muito degradadas nos últimos anos), designadamente com a extinção do aqui chamado “Factor Previdenciário”, uma criação dos governos do neoliberal Fernando Henrique Cardoso e que o governo Lula quer manter – algo muito próximo das “novas” regras de cálculo que em Portugal os governos do PS e PSD/CDS também implantaram, degradando as pensões, a pretexto do aumento da expectativa de vida (!) e fazendo-as depender do valor do PIB.
(continua)

Júlio Filipe
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por Blogue da Emigração Publicado em Política

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