A Verdade e a Mentira na Revolução de Abril – (A contra-revolução confessa-se) – II

2. A História Escrita e a Verdade Histórica

Quem escreve História tem naturalmente conceitos de natureza ideológica e teórica mais ao menos aprofundados. Conceitos de classe, que tornam inevitável a diferente apreciação dos acontecimentos.

É lícito que quem escreve História tenha já à partida uma apreciação geral, quando procede ao estudo e à escrita. Não é lícito que procure e cite, sem aferir a verdade, elementos que comprovem as suas anteriores apreciações. Tão-pouco lícito que omita, rejeite e combata elementos de verdade incontestável, que as contrariem.

É pecado de quem escreve História se a escreve com ideias feitas e definitivas, às quais submeta os acontecimentos e sua interpretação.

As ideias feitas conduzem a minimizar ou mesmo a silenciar acontecimentos por vezes determinantes e a sobrevalorizar, ao ponto de aparecerem como determinantes, outros acontecimentos, que na realidade pouco significam.

Correspondendo às ideias feitas, o vocabulário utilizado pela historiografia oficial é só por um elemento da verdade histórica.

Os historiadores das classes governantes, considerando de valor intemporal e universal os próprios conceitos de Estado, de Democracia, de Direito, desde logo têm ideias feitas que determinam a sua apreciação dos factos, e conduzem erradamente juízos de valor relativos a acontecimentos e a forças sociais e políticas, Afastam-se assim da verdade histórica.

O testemunho é um importante elemento para escrever a História. Testemunho, que pode ser de testemunha viva ou registada no passado. Que pode ser oral ou escrito. Cautela porém. Testemunho não é opinião, nem interpretação. É informação.

Não é de aceitar que se desminta um testemunho verdadeiro relativo a factos e acontecimentos, com uma opinião, dedução ou intuição. Se um testemunho, assim afirmado, apresenta como sendo um acontecimento, e portanto como sendo um dado objectivo, o que é apenas uma opinião, introduz por essa forma na história um elemento de falsificação.

É importante e actual definir ideias claras nesta matéria, porque em torno do 25º aniversário do 25 de Abril, está em curso uma nova operação concertada de falsificação da História. Falsificação da história dos 48 anos de ditadura fascista. Falsificação da história da Revolução de Abril, falsificação da história da contra-revolução. Falsificação da história das forças políticas e sociais e das forças armadas ao longo destes longos anos.

Esta operação concertada dispõe de meios colossais para a sua execução. Dirigentes de partidos, que aparecem, não apenas com a opinião que têm direito, mas pretendendo que a sua opinião tem o valor de testemunho. Catedráticos, historiadores e investigadores que, com argumento da autoridade, apresentam a sua opinião como sendo a verdade histórica. Edição de uma massa imensa de volumes, com grande tiragens, apresentados como obra objectiva, imparcial e cientifica. Colóquios, conferências, debates instrumentalizados. Constantes e sucessivos programas especiais nas televisões e nas mais potentes rádios. Artigos e entrevistas enchendo, de forma dominante, jornais e revistas.

Edições em cassettes e CD’s. Filmes escolhidos para o efeito.

A 25 anos de Abril não é fácil contrariar essa avalanche.

É entretanto necessário e vale a pena contraria-la. Por amor á verdade histórica. E à memoria e à honra dos que ousaram e ousam lutar por uma sociedade melhor.

Álvaro Cunhal

Setembro de 1999 – 10 anos

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por Blogue da Emigração Publicado em Política

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