As lições da Grécia que eles tiram

O governador do Banco de Espanha voltou a intervir na vida pública, fazendo gala de que é uma das grandes figuras da política espanhola e não um simples técnico como ele e os seus colegas dizem de si próprios. E fê-lo também, mais uma vez, defendendo as posições patronais e dos grandes bancos e grupos financeiros a que serve. Mostrando igualmente que nem ele nem a instituição que governa são independentes como diz o seu estatuto.

Agora afirma que há que “extrair lições da Grécia”. Uma recomendação muito sensata que todos deveríamos seguir se não fosse porque as lições que ele extrai são do mesmo tipo das que extrai de qualquer circunstância que seja, chova ou faça sol.

O governador não diz que é preciso tirar lições da política dos governos conservadores que levaram a Grécia à ruína. Uma política que é a mesma que a sua instituição defende.

O governador não recomenda que retiremos lições da especulação que engordou às custas da economia grega nos últimos meses através de fundos especulativos que não procuram saneá-la nem dar-lhe mais estabilidade e sim ganhar milhares de milhões ainda que seja ao custo de tudo explodir.

O governador não tem que aprender nem recomenda aos demais que aprendam a controlar os bancos para que não voltem a provocar a crise que obrigou os governos de meio mundo, entre eles o grego, a terem de endividar-se até as sobrancelhas enriquecendo assim a banca privada que provocou a crise.

O governador não recomenda que retiremos lições do mau funcionamento da zona euro, da falta de coordenação política ou da ausência de instituições e mecanismos que permitam fazer frente aos desequilíbrios que, como no caso grego, se podem verificar.

O governador não tira conclusões da falta de controle dos bancos que roubaram o povo grego, ou da cumplicidade do Banco Central Europeu com os banqueiros que enriqueceram ocultando os números do défice grego.

O governador tão pouco extrai lições da cegueira dos supervisores que como ele não apreciaram o que ia acontecer apesar de serem tão prontos a autoproclamarem-se depositários da verdade e de terem à sua disposição meios privilegiados para acompanhar a conjuntura económica.

O governador não tira lições da borbulha imobiliária e financeira que banco centrais como o seu deixaram que se expandisse.

O governador não nos diz para tirarmos lições da deriva regressiva das políticas fiscais dos últimos anos.

O governador não extrai lições do incremento da desigualdade dos últimos tempos, nem o preocupa que a poupança se tenha estado a dirigir para a especulação.

O governador não extrai lições do que estão a fazer os bancos com o dinheiro público – em lugar de utilizá-lo para financiar a economia usam-no simplesmente para melhorar os seus resultados e repartir dividendos multimilionários aos seus accionistas.

O governador não extrai lições do que acontece quando os mercados se debilitam pela precariedade no emprego e pelos baixos salários.

O governador não tira conclusões do facto de que os bancos multiplicam artificialmente a dívida graças ao sistema de reservas fraccionárias que produz instabilidade permanente e as crises financeiras recorrentes.

O governador não tem nada a aprender do facto evidente de que a plena liberdade de movimentos de capital está gerando a etapa de maior e mais daninha instabilidade financeira da história.

O governador não extrai lições da opacidade em que actuam os bancos e os grandes financeiros e de a sua própria instituições ocultar a situação real dos bancos espanhóis, enganando a cidadania.

O governador não extrai lições dos problemas colocados pela cada vez maior concentração do poder financeiro e da banca e dispõe-se a entregar numa bandeja aos banqueiros espanhóis parte do mercado que até agora era controlada pelas caixas económicas.

O governador olha para outro lado e não é capaz de extrair lição alguma do que implica não dispor de banca pública e deixar o financiamento imprescindível da vida económica nas mãos dos bancos privados.

Não. De nada disto extrai lição alguma o governador.

As lições que segundo ele é preciso extrair do caso grego é que na Espanha devem-se rebaixar os direitos sociais reduzindo a despesa pública, e os direitos e salários dos trabalhadores reformando as leis que regulam o mercado de trabalho.

Essa é a única lição que segundo o governador do Banco de Espanha, assim como segundo o patronato e os banqueiros, os espanhóis devem aprender.

Uma lição falsa com a qual consumam um vergonhoso engano dos cidadãos porque ocultam à cidadania que o se passou ou o que se passe com as contas do Estado ou no mercado de trabalho não é causa e sim efeito do ocorrido no sector financeiro e no mercado de bens e que portanto é nestes espaços que se deve actuar. Concretamente, reduzindo os direitos, os privilégios e o poder dos financeiros, dos banqueiros e do grande patronato e não dos trabalhadores.

Conseguirão o que se propõem se a cidadania não se mobiliza os enfrenta com decisão. Mas eu não perco a esperança de que assim seja e de que, na Grécia, aqui e em toda a parte, algum dia se ponha em evidência o latrocínio que os banqueiros estão a levar a cabo e a cumplicidade vergonhosa destes funcionários que em vez de servir do Estado e os cidadãos trabalham ao seu serviço.

[*] Professor Catedrático da Universidade de Sevilha, coordenador de http://www.altereconomia.org

O original encontra-se em hl33.dinaserver.com/hosting/juantorreslopez.com

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/

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por Blogue da Emigração Publicado em Economia

2 comentários a “As lições da Grécia que eles tiram

  1. Saudações ao mentor do blog, pela oportunidade da publicação deste testemunho, nos dias de hoje tão necessário, tanto em Espanha como até mais em Portugal, o país de vez que se segue.
    Oxalá também entre nós se levantem testemunhos semelhantes, pois razões até as temos e acrescidas!
    Forte abraço.

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