Grã-Bretanha – Crise capitalista compromete a clássica solução parlamentar burguesa bi-partidária

Reflexo também da profunda crise que se vai instalando nos paises europeus, os resultados eleitorais ingleses revelam a crise do sistema bi-partidário, uma solução instalada e mantida há décadas na velha Albion, tal como em vários outros países capitalistas da linha da frente – caso dos EUA e outros – e “exportada” pelo capital como a sua melhor solução para todos os restantes.

De facto, com os trabalhistas de Gordon Brown derrotados e “despromovidos” para o terceiro lugar e os conservadores de David Cameron “promovidos” ao partido mais votado mas sem conseguirem obter a maioria absoluta no parlamento – não obstante a anti-democrática lei eleitoral inglesa, violadora do princípio democrático da proporcionalidade n°. de votos/n°. de eleitos – a demissão de Gordon Brown do cargo de 1°. ministro hoje (10/5) anunciada e as suas desesperadas negociações em curso, tendo como protagonista principal o partido liberal de Nick Clegg que subiu muito a sua votação, tornando-se o partido-charneira para uma solução da crise política, são dados novos que mostram que a clássica solução alternante labour-tory parece uma solução esgotada, pelo menos no imediato.

Para aquilo que aqui nos interessa tratar, não somente a aritmética dos votos mas sobretudo tentar interpretar o fenómeno nas suas vertentes político-ideológicas, tem interesse procurar perceber as razões que determinaram estes resultados eleitorais e, concomitantemente, a muito maior afluência às urnas verificada – que, por completamente inesperada para o “establishment”, obrigou a que tenham ficado muitos milhares de eleitores sem votar, por falta de boletins de voto(!) e paralisados em longas filas de eleitores, confrontados com a inexorável pontualidade britânica e vendo fecharem-se-lhes as portas de muitas das secções de voto.

Parece estarmos perante um interessante fenómeno de “paralaxe política”, com o partido liberal a conseguir persuadir os eleitores que, sobretudo em política externa, é contra os principais eixos governativos propostos pelos seus dois outros antagonistas, aparentando posicionar-se à esquerda da “esquerda” trabalhista. Socorrendo-nos das notícias e artigos na imprensa, observemos algumas das suas afirmações no último ano e durante os debates eleitorais.

“Cada vez que temos de tomar uma decisão, não temos escolha senão seguir as decisões tomadas na Casa Branca.” Ao contrário de seus concorrentes, ele afirmou que quer que a Inglaterra passe a agir na área internacional em conformidade com os seus interesses e não como um simples apêndice militar dos EUA.
Consubstanciando essa ideia, Clegg defendeu posições concretas que contrariam os americanos em pontos fundamentais. Foi contrário à invasão do Iraque, compartilhada por forças inglesas. Advoga uma postura imparcial no Oriente Médio, em lugar do apoio a Israel, adoptado pelos governos trabalhistas de Tony Blair e Gordon Brown.
Antes do ataque a Gaza, em artigo no ‘The Guardian’, em Janeiro de 2009, intitulado ‘Precisamos parar de armar Israel’, o líder liberal escreveu: “Brown precisa condenar sem ambiguidades as tácticas de Israel, como condenou os ataques de foguetes do Hamas”. E mais adiante: “Ele (Gordon Brown) precisa liderar a Comunidade Europeia para usar as suas forças económica e diplomática na região e mediar a paz. A Europa é de longe o maior mercado para exportação de Israel. Ela precisa suspender imediatamente o novo acordo de cooperação com Israel até que as coisas mudem em Gaza, apresentando condições firmes para assistência a longo prazo à comunidade palestina.”
Durante a guerra de Gaza, Clegg pronunciou-se assim: “Temos um presidente dos EUA de saída (Bush) sancionando a resposta militar israelense e um doloroso silêncio do presidente eleito (Obama). Temos uma União Europeia comprometida por confusas mensagens… Gordon Brown, como Tony Blair, fez a política externa inglesa ficar efectivamente subserviente da de Washington. O apoio ao governo extremista de Israel não é nem do interesse da Inglaterra, nem do seu povo”.
E um ano depois da invasão de Gaza, quando a Europa e os EUA se calaram perante o bloqueio de alimentos e materiais de construção pelo exército israelense, o líder liberal proclamava que “o confinamento e punição de toda uma população não é a forma de construir a paz para todos os povos do Médio Oriente”.
Mas Nick Clegg foi ainda mais longe no tratamento de temas delicados para as relações EUA-Inglaterra. O manifesto de lançamento da sua candidatura diz que “queremos um completo inquérito judicial sobre a conivência do país nas torturas e nas ‘rendições extraordinárias’, nas quais suspeitos de terrorismo eram presos pela CIA no exterior e enviados a países para serem torturados secretamente”.
Ainda mais outra posição dos liberais, mal vista pela Casa Branca: Clegg é contra o Sistema de Misseis Trident, alegadamente planeado ante a possibilidade de um hipotético ataque da ex-União Soviética. Para ele, já que a Guerra Fria acabou, não se deve manter o programa Trident, com um custo de 120 bilhões de libras nos próximos 20 anos.
Mesmo arriscando perder votos de uma população fortemente atingida pela crise capitalista e revelando crescentes tendências anti-imigração, o líder liberal defendeu a amnistia dos emigrantes ilegais que se encontrem há dez anos no país, ao contrário das medidas duras propostas pelos seus adversários, inclusive pelos trabalhistas.
Coerente com as tradições liberais inglesas, ele quer ainda, através de uma “freedom bill” (lei da liberdade) restaurar a protecção às liberdades civis violadas e suprimidas pelas medidas anti-terrorismo do período Brown.
E sobre política financeira, rejeitou o princípio aplicado aos bancos conhecido por “too big to fail” (muito grandes para falir), fielmente respeitado por trabalhistas e conservadores. Nick Clegg garantiu que, se fosse eleito, não impediria a quebra de grandes bancos fraudulentos.

Pela leitura destas numerosas posições de “esquerda” do partido liberal, pela consideração da maior afluência dos eleitores ingleses nestas eleições inglesas, parecem possíveis algumas conclusões;

– a derrota (já esperada) dos trabalhistas traduz por parte do eleitorado uma atitude de punição do seu governo e das políticas trabalhistas de alinhamento canino com o agressivo imperialismo estadunidense;

– os ingleses estão descrentes com os partidos que durante décadas têm alternadamente aplicado as mesmas receitas, contra os trabalhadores e de favorecimento do grande capital;

– o partido liberal, advogando algumas posições objectivamente mais à esquerda, foi agora a escolha de alguns milhões desses eleitores descontentes, que assim estilhaçaram a tradicional alternância sem alternativa que tem sustentado os sucessivos governos conservadores e trabalhistas;

– com este resultado, fica fragilizado o edifício político da burguesia inglesa ao qual podemos chamar regime do partido único-bicéfalo, fenómeno que pode “contaminar” crescentemente os eleitorados de outros países que igualmente vêm sustentando semelhantes soluções “bicéfalas”

– por último, estas mudanças eleitorais revelam a existência de um espaço crescente no eleitorado inglês disponível para outras escolhas, para opções políticas que contestem o “status quo”, espaço esse que poderá vir a ser suporte para a actividade das forças políticas e sociais que recusam as soluções do neoliberalismo dominante e defendam a contestação do sistema, propondo novos caminhos democráticos para os povos.

De um ponto de vista de classe, assente numa análise política de classe, não há razões para alimentar quaisquer ilusões com o crescimento eleitoral do partido liberal inglês. Ele faz parte e integra o arco dos partidos representantes dos interesses do grande capital, os políticos da política de direita; quando a perspectiva de vir a integrar o próximo governo inglês surge bastante mais consistente, são de esperar alterações significativas naquelas posições que o liberal Nick Clegg foi defendendo, durante o período que antecedeu as eleições e na própria campanha eleitoral. Isso é típico destas democracias burguesas, é próprio do comportamento dos políticos burgueses, nada há para estranhar nem que justifique que gastemos mais tempo com tal.
Importará sim estarmos atentos às próximas posições e iniciativas dos sindicatos e partidos da esquerda britânicos, esperando que deles tenhamos boas e estimulantes notícias, no nosso combate comum à presente ofensiva neoliberal na Europa e no mundo. Lá como cá, temos que estar sempre em condições de aproveitar e usar em nosso favor todas as debilidades e dificuldades – mesmo que conjunturais e de modestas dimensões -, que vão atingindo o aparelho e as forças de dominação capitalistas.
Lá como cá, a luta dos povos europeus e mundiais, tornada mais instante e imperiosa, exige-nos grande capacidade táctica e sólida firmeza estratégica, organizando a resposta e o contra-ataque das organizações operárias e populares, para contermos e derrotarmos a presente (e violenta) ofensiva deste neoliberalismo revivido.

Júlio Filipe

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Um comentário a “Grã-Bretanha – Crise capitalista compromete a clássica solução parlamentar burguesa bi-partidária

  1. É uma análise interessante e realista, estou completamente de acordo com tudo o que foi escrito, sobre a complexa situação em que se encontra o povo Inglês.Esta formula capitalista começa a ficar esgotada, são muitas dezenas de anos de aplicação, e de grande sucesso para a burguesia capitalista!
    Será provávelmente uma pequena luz ao fundo do túnel, vamos aguardar e constactar se as palavras da direita liberal se juntam aos actos!
    Desmestificando a direita real travestida de “democrata”/”socialista”/trabalhista?!Tendo feito muito bem o trabalho de casa do sistema capitalista durante muitas décadas, mentinndo como só eles sabem fazer, aos eleitores de quase todos os países do mundo…
    Quando é que teremos capacidade de os desmascarar, de forma a ter impacto nos eleitores, provocando nestes a mudança de sentido do voto, de forma contundente! Quando? Vamos continuar a luta, é a única via possível para os derrotar! Um abraço e até sempre… Sid

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