Manifesto à Comunidade Portuguesa e aos Amigos Brasileiros

Todas as informações que nos chegam, sobre a preparação e mobilização em Portugal para a grande Jornada de Luta dos Sindicatos da CGTP-IN, no próximo sábado, 29, indicam estarmos prestes a confirmar a realização de uma das maiores manifestações desde sempre realizadas no país. De facto, as razões dos trabalhadores e de outras camadas produtivas para tal não são para menos; roubo nos salários e pensões, novos assaltos do Fisco, com aumento nos impostos indirectos, cortes nos apoios sociais, designadamente no subsídio de desemprego – num quadro de recessão económica! -, cortes nos investimentos públicos, novas privatizações de empresas nacionalizadas após o 25 de Abril, ameaça de novas alterações na legislação dos direitos do trabalho, enfim, uma violentíssima ofensiva do governo “socialista” do PS, apoiado pelos partidos tradicionais da direita.
Da violência desta ofensiva do grande capital europeu e internacional, contra os trabalhadores e os povos do sul da Europa, e da disposição do movimento operário e popular para lhe resistir, fala também a mobilização de emigrantes portugueses no Brasil.
Por iniciativa do Centro Cultural 25 de Abril, herdeiro político da importante acção desenvolvida em terras brasileiras pelo jornal “Portugal Democrático” durante os anos de fascismo em Portugal, um grupo de emigrantes aqui radicados organiza um acto cívico, no mesmo dia e à mesma hora em que decorre a manifestação em Lisboa. Iniciativa de solidariedade e de luta, aberta à participação dos democratas brasileiros amigos de Portugal, surge com o claro propósito de afirmar as características verdadeiramente nacionais da Jornada de 29/5, devendo constituir um estímulo para que outras comunidades emigrantes se unam também na luta.
Transcrevem-se em seguida os textos do Convite e do Manifesto que os camaradas estão a dirigir aos nossos amigos e a divulgar à comunidade portuguesa aqui emigrada e junto da Imprensa brasileira local.

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“A direção do Centro Cultural 25 de Abril, fiel aos princípios democráticos e populares que desde sempre guiam as posições e atividades desta Associação, perante as notícias que nos chegam de Portugal, com informações que reputamos graves para o bem-estar e futuro próximo dos nossos compatriotas, decide manifestar as seguintes considerações:

1- Afirmar a sua veemente oposição e repúdio perante a violenta ofensiva que nestes dias decorre no nosso país de origem, pela mão do atual governo PS/Sócrates e com o declarado apoio do PSD, com o propósito de cometer um autêntico assalto aos rendimentos dos trabalhadores portugueses e para benefício exclusivo dos banqueiros e outros setores do grande capital nacional e estrangeiro;
2 – Com efeito, as tentativas do governo português para aplicar novas taxas de IRS, preparando-se para descontar mais um imposto adicional entre 1 e 1,5% nos salários e pensões e anulando deduções à coleta relacionados com despesas com saúde e educação, a par do agravamento da taxa do IVA em mais 2% e fazendo-a incidir sobre todos os artigos de primeira necessidade, nomeadamente alimentos, são medidas que configuram um verdadeiro roubo a todos os que vivem do seu trabalho e que constituem a esmagadora maioria da população;
3 – A somar a estas medidas de espoliação, o governo português prepara planos para anular numerosas prestações sociais indispensáveis à sobrevivência das famílias mais pobres e, no momento em que os dados oficiais do desemprego já atingem os 10,6% (só no último ano, mais cerca de cem mil desempregados!), quer reduzir e liquidar mesmo o subsídio de desemprego que hoje já só é recebido por pouco mais de 40% dos desempregados, criando assim um quadro de miséria generalizada em vastas regiões do país;
4 – Com o falso e hipócrita argumento da “crise”, e depois de ter desviado das finanças públicas a colossal verba de 20.000 milhões de euros para alegadamente “socorrer” os bancos envolvidos na especulação e nas fraudes financeiras – bancos que, só os cinco maiores portugueses, registraram este ano lucros de 5,5 milhões de euros por dia! -, o governo português comporta-se como um autêntico “pau mandado” dos governos das maiores potências da U.E. e da sua Comissão, submetendo-se a todas as ordens recebidas desta com o objetivo de drenar para os bolsos dos banqueiros alemães e franceses os já limitados recursos do Estado, para mais recursos quase totalmente suportados pelos impostos pagos pelos que menos têm, ao mesmo tempo que se preparam para abocanhar as poucas empresas e serviços públicos ainda não privatizadas, sacrificando assim o desenvolvimento e a independência da nossa economia nacional;
5- Este servilismo aos interesses do grande capital levou a Espanha e a Argentina, alunas aplicadas das “receitas mágicas” e “recomendações” de economistas a serviço das grandes negociatas, à situação de penúria orçamental atual e à recessão. Ou ao “sucesso exemplar” da Letônia, como é classificado o país em The Economist, que sofreu queda do PIB de 25%, desemprego de 22%, mas não deixou de pagar os credores e tem seus restaurantes de luxo cheios. Os países que, na América Latina, na Ásia e em África, souberam resistir às chantagens do FMI, declararam o não pagamento das “dívidas” que justamente consideraram ilegítimas, apostaram no aumento da sua capacidade produtiva, gerando mais empregos, mais riqueza, melhores salários, melhores condições de vida para os seu povos.
6- Denunciando esta situação, acreditamos que há outra solução e outro caminho, para Portugal e para os portugueses, assente no aumento da produção nacional, no aumento do investimento público em obras estratégicas para induzir o crescimento econômico, no aumento dos salários e pensões que estimule o mercado interno, no apoio decidido a melhores serviços públicos prestados à população (na Saúde, no Ensino, na Habitação, nos Transportes, na Seg. Social), com uma política fiscal que faça pagar ao fisco aqueles que mais têm e acabe com o escândalo dos “off-shores”, tributando fortemente a especulação bolsista, enfim, é possível uma outra política, democrática e patriótica que aposte nas capacidades e no trabalho dos portugueses e recuse a subserviência perante os grandes da U.E.;
7 – Valorizando a justíssima decisão dos Sindicatos portugueses da CGTP, que convocaram uma importante jornada nacional de luta para protestar e contestar estas últimas medidas antissociais do governo português, marcando uma Grande Manifestação Nacional para o Próximo sábado, dia 29/5, em Lisboa, o Centro Cultural 25 de Abril de São Paulo, inteiramente solidário com os objetivos desta Manifestação em Portugal, decide realizar nesta mesma data um ato público de solidariedade e protesto, a ter lugar na Praça Mestre de Avis, às 11h, para o qual convoca todos os membros da comunidade emigrante portuguesa, bem como apela ao apoio e solidariedade dos democratas brasileiros amigos de Portugal e do Povo Português, para que se integrem e nos acompanhem neste ato público que, acreditamos, também pretende resgatar a nossa dignidade e o nosso patriotismo, lutando juntos contra a ditadura capitalista da União Europeia, que nestes dias agride os legítimos e inalienáveis interesses do povo português e dos outros povos da Europa.

Contamos com a presença de todos vós, compatriotas e amigos de Portugal e apoiantes dos mais belos propósitos da Revolução dos Cravos de 25 de Abril!
Todos no próximo sábado, dia 29, à Concentração na Praça Mestre de Avis, a partir das 11 h, junto ao Monumento ao 25 de Abril. Até lá!”

CONVITE

O Centro Cultural 25 de Abril, convida a Comunidade Portuguesa de São Paulo a comparecer dia 29 de maio de 2010, (sábado) às 11:00h junto ao Monumento “As Portas Que Abril Abriu”, localizado na Pça. Mestre de Aviz na av. Ibirapuera em S. Paulo e erguido em homenagem à Revolução dos Cravos de 25 de abril de 1974, para participarem de ato cívico de apoio aos trabalhadores portugueses e à CGTP (Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses) neste momento de crise que Portugal enfrenta.

Júlio Filipe

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7 comentários a “Manifesto à Comunidade Portuguesa e aos Amigos Brasileiros

  1. O Povo Unido Jamais Será Vencido.
    Sim, é verdade que a união faz a força e embora esteja a 2500 km de Lisboa, cá estarei torcendo e apoiando a luta contra os mais corruptos dos corruptos, vampiros que nos sugam o sangue.

    Raposo

  2. Camaradas e amigos, estamos numas das muitas curvas apertadas, que todas as estradas da vida têm, é o momento de unir esforços,para desta forma dar a merecida resposta aos lacaios do capitalismo nacional e internacional.
    O que nos une é, muito mais importante que aquilo que nos divide e, o que está em jogo é o futuro dos povos. Faço votos para que a resposta dos trabalhadores portugueses no sábado dia 29.05.2010, esteja à altura da dimensão dos problemas sociais gravíssimos que pairam sobre as nossa cabeças. Mesmo distantes, estaremos convosco, neste momento de luta tão importante!!!É extremamente importante não ter medo, do medo colectivo, que impede a acção de cada um, em favor do bem comum…Até sempre camaradas! Sid

  3. O capitalismo neoliberal atravessa uma crise estrutural que é uma especie de suicidio,vai autodestruir-se e vão surgir movimentos de revolta
    e sociedades novas que tem de ter uma feicäo social e uma divisão mais igualitária dos bens.Que profetas
    eram e säo os políticos que na década de 80 discursavam adoutoradamente que com a integracäo de Portugal no ex MC, todos os males que enfermavam o
    País seriam radicalmente curados! Será que a montanha deu á luz um rato? Primeiro a Grecia, depois Portugal, a Espanha idem e, de seguida, virão todos, mas que bruha de dor. Tambem se pergunta…onde está o dinheiro que as massas laboriosas produziram? Como todas as gavetas estão vazias: que lhe fizeram, comeu-se, deslizou pelos esgotos, queimou-se ou mandou-se ao mar ?

  4. Força! A luta de massas é fundamental para mudar a política num sentido progressista. Todos os que puderem, devem ir à manifestacao da CGTP-In. Estou em Berlim, a 3000 km de Lisboa, seguirei esse grande evento por todos os meios ao alcance e tenho muito pena de nao poder estar presente.

  5. Daqui de França, a cada segundo meus passos, amigos, estarão com os vossos, que este oceano de ira que me cresce justo e potente inunde cada coração (desses que se deixam embalar e iludir, entregando o futuro nas mãos de facínoras : a alta finança e os servos que lhes andam à babuja, repugnantes vampiros bebendo o sangue dos que honestamente e com esforço, mal pagos, vão ganhando com que subsistir!
    enquanto subrepticiamente uma corja de bandidos mafiosos a soldo da sua própria imoralidade e corrupção, confortavelmente instalados na ignorante cegueira que tem permitido a mais total perda de identidade como filhos do País que lhes deu e voz e Cultura ancestral,uns tristes desgraçados vendem-se por meia dúzia de irrealizáveis ilusões, facultando aos mandadores a possibilidade de criar um novo tipo de escravatura, onde todos os que trabalham para subsistir,venderão a última parcela de tempo para ir comendo (mal) e para dar aos filhos (com grande esforço) os meios de estudarem para que a nova escravatura prossiga, esta escravatura que deixa como paga do esforço de vidas de trabalho, um prato cada vez mais vazio e empregos donde os filhos tirarão, não o fruto merecido de tanto trabalho e esforço, mas unicamente o pobre espelho do que foi a vida dos pais,
    Como diria o Sérgio Godinho: que força é essa amigo, que te põe de bem com outros e de mal contigo!!!?
    Quando a situação por vossa inércia
    não tiver saída, quando o vosso desespero for tão grande que vos encha os dias e as noites, quando se sentirem tão infelizes e desgraçados sem ver uma nesga de luz ao longe para onde avançar…
    lembrem-se de nós! nós, que vossos amigos, como se de irmãos se tratara tantas vezes vos avisámos de PERIGO!
    Ou nos escutam hoje e despertam dessa malvada letargia, ou bem cedo verão o preço da preguiça de pensar e as consequências irremediáveis da cobardia!

    Amanhã dia 29 de Maio é dia de Luta por vossos direitos, portem-se como gente que são e venham para as ruas gritar o vosso não à corrupção e ao abuso desenvergonhado dos governantes!

    Marília Gonçalves

  6. Avenida

    Fui ainda há pouco a Lisboa

    pensando matar saudades

    a vida não se fez boa

    a quem fugiu prás cidades

    As saudade não se matam

    porque logo nascem mais

    mas as vozes nos desatam

    e fazem de nós pardais

    Estou na Baixa, e os meus olhos

    não vêem prédios nem chão

    só vêm dor, mar d’escolhos

    a esbarrar na multidão

    Lá anda gente a correr

    pela vida aos tropeções

    lá estão outros a vender

    miséria em sonho aos milhões

    O pobre pé, descalçado

    não incomoda ninguém

    tão visto já, resfriado

    e nascido de uma mãe !!!

    Não me quero ir já embora

    tenho ainda muito que ver

    mesmo que me doa agora

    eu não me quero esquecer

    Que se nascemos com olhos

    é para ver as montanhas

    de injustiças e de abrolhos

    que ao homem rasga as entranhas

    Lá vai o miúdo roto

    leva as mãos nas algibeiras

    com ar gaiato e maroto

    dizendo duas asneiras

    Mas dentro, lá bem no fundo

    andam versos a nascer

    e é por ser filho do mundo

    que anda por aí a sofrer

    Que essas palavras que larga

    a desafiar a populaça

    são feitas da dor amarga

    que mesmo pequeno passa

    E agora aqui ao lado

    esta um ceguinho a tocar

    a pensar também que é fado

    andar com fome a cantar

    agora… aqui vou eu….

    aqui está Martim Moniz

    quanta gente a quem mordeu

    outra rica, má feliz!

    e os meus passos no dia

    feito da noite brutal

    vão comendo poesia

    no homem que vive mal

    Enquanto sigo dorida

    a olhar o temporal

    vou subindo a Avenida

    mas firme, no vendaval!!

    Já cheguei ao Intendente

    e por entre a gente séria

    quanta infeliz que mal sente

    que não tem mais que miséria

    Ai ó senhoras honradas

    que me apetece insultar

    as vidas despedaçadas

    nascem do vosso luxar

    Ás que vivem sem sentir

    as que choram como nós!

    se passarem a sorrir

    as mais perdidas sois vós!!

    Porque quem vive diferente

    se a porta não viu fechada

    prá vida passar decente

    não lhe custou mesmo nada!

    São filhas da noite escura

    dum estado podre de velho

    e esta ferida que ainda dura

    é o seu mais fiel espelho

    Mais uns passos, finalmente

    eis chego à Praça do Chile

    ó povo depressa ó gente

    façamos mais um Abril!!!

    Marília Gonçalves

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