o capitalismo cai de podre?

Um economista, disse-me o Jorge Machado, profetizava o fim da globalização por força da escalada dos custos dos transportes, relacionada com o aumento do preço dos combustíveis. Ele estava a ler um jornal de negócios ou um suplemento de economia e contou-me isso. Confesso que nao fui ler o referido artigo. No entanto, há duas ou três questões que julgo úteis para analisar ou tentar profetizar o que quer que seja e, principalmente, quando se trata de decretar o fim de alguma coisa. As análises lineares e simplistas já decretaram o fim do meu Partido milhares de vezes, incontáveis vezes, e até hoje nunca vingaram. Tal como decretaram o sucesso capitalista desmedido e o progresso imparável e inesgotável do neo-liberalismo. E até hoje a história nos vem provando o contrário.

Então o aumento dos preços dos combustíveis determinará directamente o fim da globalização? Qual globalização? O que é aliás, a globalização nos termos hoje praticada?

1. Há hoje mais reservas petrolíferas do que nunca e a tendência é para que continuem a aumentar.
2. O preço de exploração e os custos de produção energética descem a pique desde a revolução industrial.
3. A globalização hoje é essencialmente baseada na globalização de capitais.
4. O futuro não está escrito e muito menos aprisionado a tecnologias baseadas na queima de hidrocarbonetos, como tal, pode não ser estritamente relacionável a dinâmica do mercado mundial (financeiro ou material) com os custos finais do petróleo e derivados.

Partindo dessas questões há que fazer também uma abordagem política sobre o que representa a globalização actualmente e quais as suas implicações nas relações de classe e na acumulação de capitais. A globalização implica aumento da exploração da mão-de-obra, numa perspectiva capitalista. A globalização não assenta na livre circulação de bens e pessoas, antes na livre circulação de capitais e de exploração. Ou seja, na prática, a globalização capitalista é a materialização das leis mais elementares do capitalismo. No entanto, ligar tão intimamente os custos económicos do petróleo ao fim do transporte de mercadorias assenta num erro de análise da cena política actual e parece ignorar os confrontos de classe que actualmente definem o curso da história. Ora, dizia-se que o capitalismo chegará à conclusão de que o fim do transporte de mercadorias é economicamente mais viável e lucrativo do que continuar a assumir os custos do petróleo e o seu encarecimento.

Não me parece ajustado o raciocínio por alguns motivos correlacionados.

i. o capitalismo não se sacrifica a si próprio, ou melhor, a classe dominante, sendo competitiva, é no essencial, solidária.

ii. a grande divisão política que determina o sucesso de um empreendimento capitalista não está de igual forma colocada sobre todos os factores de produção. A força do capital e dirigida especificamente para a desvalorização do factor trabalho e não para a desvalorização dos restantes custos dos factores de produção, sendo que, no essencial, eles são propriedade da classe dominante. Ou seja, é o factor trabalho que tende a ser desvalorizado na medida directa da valorização e encarecimento dos restantes custos de produção.

iii. para o capitalismo, o encarecimento dos custos de transporte serão, não uma limitação á globalização capitalista mas um estímulo à sua intensificação para aumentar as taxas de exploração.

iv. o sistema capitalista é um sistema racional do ponto de vista dos seus objectivos. Esses objectivos, porém, não são racionais do ponto de vista da sustentabilidade das actividades humanas e da subsistência da espécie. Por isso mesmo, a delapidação dos recursos e a intensificação da exploração da mão-de-obra poderão ser resultados de uma estratégia insustentável, mas não será por isso que o sistema capitalista abdicará dela.

v. é óbvio que o capitalismo poderá proceder a alterações na configuração da sua arquitectura global e que poderá arriscar a globalização a bem da sua própria sustentação. Isso não ocorrerá, no entanto, por força de factores que ele próprio controle. Porque a globalização da produção e a distribuição das mercadorias são o garante da capacidade de exploração por parte dos grandes grupos e corporações.

vi. os custos do petróleo atingem hoje o preço que atingem precisamente pelo valor objectivo que tem essa matéria-prima na economia global, mas esse preço é essencialmente proporcional, não ao aumento dos custos de mão-de-obra, nem dos custos de exploração geológica, mas essencialmente ao crescimento dos lucros. É hoje mais barata a produção de um kW do que sempre, no entanto, ela é paga pelo consumidor a preços nunca antes vistos. Da mesma forma, é hoje mais barata a extracção de petróleo e gás natural do que em qualquer outro ponto da história. Em termos relativos, os custos de produção baixam genericamente junto dos grandes grupos económicos, enquanto aumentam junto de sectores médios e pequenos da economia, particularmente os produtivos porque também implicam mais consumos. No entanto é um facto que o petróleo é negociado cada vez mais acima.

vii. seria, no entanto, demasiado ingénuo pensar que o sistema capitalista não buscará e encontrará as próprias soluções técnicas e alternativas ao esgotamento dos combustíveis. Basta que para tal, se torne mais lucrativo buscar essa tecnologia do que continuar a utilizar os hidrocarbonetos e o oxigénio atmosférico.

Só mesmo a luta dos povos, dos trabalhadores organizados para a disputa e conquista do poder político, só mesmo o posicionamento do proletariado como classe dominante, poderá representar objectivamente a valorização do factor Trabalho, em detrimento dos restantes factores de produção. Fora dessa nova organização social e política, o trabalho será sempre o factor sacrificado para a manutenção dos circuitos capitalistas de acumulação. Só com a luta dos trabalhadores e a sua organização em Estado e em direcção política da sociedade será possível pôr fim à globalização capitalista para a substituir por uma globalização do bem-estar e dos direitos, assegurando a distribuição justa e solidária da riqueza produzida e o fim da acumulação capitalista.

Miguel Tiago

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4 comentários a “o capitalismo cai de podre?

  1. O capitalismo nunca vai cair de podre.

    Só vejo uma maneira de os capitalistas pararem de nos escravizarem.

    A europa nacionalizar a banca.

  2. É um facto que o mundo gira atrás do petróleo…
    Outro facto, é que a industria do petróleo, ligada á banca neste momento, controlam todos os valores aplicados ao consumidor final, condicionando ate governos. Vejamos, o petróleo não pára de ser mais caro a cada dia que passa mas no entanto são os grandes grupos produtores e distribuidores de petróleo que há anos vêm atrasando e impedindo o desenvolvimento das energias renováveis e limpas. O motivo é óbvio, valorizar um bem do planeta através do monopólio de meia dúzia de grupos poderosos que como um cancro controlam o coração do comercio. Outro cancro é a banca, criadora da crise, apenas com o objectivo de aumentar lucros. Num sistema viciado como o actual, é impossível alguém ter algo sem alguma vez recorrer a credito, seja casa , carro ou outros bens..
    Assim, temos o dinheiro que precisamos, mas pagamos o dinheiro muito bem pago, chegando o total por vazes a 300% da divida…E se não puder ser pago pelo consumidor, é-lhe retirado sem reembolso de tudo o que já pagou… Não é justo! Ainda temos que pagar seguros e escrituras que por sua vez pagam taxas ao estado. Ah, o estado, nem sei se vale a pena dizer alguma coisa acerca. De conluio com os grupos poderosos, faz-nos pagar ainda muito mais por combustíveis, ivas irc`s, irs´s e essas tretas todas. Depois scuts, imposto de circulação, apertar de cinto para pagar uma crise que o trabalhador não criou, mas tem que pagar, desemprego, cortes de apoios as pequenas empresas, mas favorecendo os bancos em milhões de euros!
    Meus amigos, colegas, camaradas e insatisfeitos em geral levantemos os braços…
    Assim, como se diz na minha terra, não há c…a que aguente…

    Abraços!

  3. Os camaradas que me perdoem, mas este artigo está cheio de disparates anti-científicos e que vão aliás contra a opinião dos cientistas comunistas portugueses e contra os documentos internos do Partido Comunista Português sobre estas matérias.

    O petróleo é uma fonte de energia finita. E tudo o que se pode concluir daí irá acontecer seja amanhã seja daqui a dez anos. O capitalismo até pode sobreviver, mas o que podemos ter a certeza é que não será na actual base de petróleo barato – com tudo o que esse petróleo proporciona em transportees, infrastrutura, indústria, agricultura, etc.

  4. Camarada Luís Rocha,

    Espero não ter contrariado “nenhum documento interno” do PCP. Se o fiz, foi de forma não deliberada. Como certamente repararás, se leres o texto com mais cuidado, o autor – por acaso eu próprio – nunca diz que o petróleo é inesgotável. Por acaso, uma hipótese nunca é, em si-mesma, anti-científica e não existem neste momento da história provas científicas que afirmem com precisão qual a dimensão das futuras reservas de petróleo, mas isso é outra conversa. Claro que poderei ter escrito coisas com as quais não concordas, mas não contribuas para a distorção do que ali escrevi inventando o que lá não está escrito.

    O texto que escrevi, como reparás, estou certo, tem como intenção passar uma simples tese: a globalização capitalista não cessará pelo simples motivo da escassez de petróleo e, como tal, o capitalismo não cairá por limitações naturais do planeta.

    Por acaso sou formado em geologia e, do ponto de vista científico julgo não ter dito nenhum “disparate” como referes, mas peço-te que mos indiques para que possa reapreciar o texto já com o teu contributo, pois nada do que escreveste no teu comentário parece indicar qualquer questão específica, tampouco parece indicar uma crítica específica ou desmentir uma tese. Limita-se a dizer que o texto é um disparate e que vai contra os documentos internos do PCP…

    Obrigado,

    Miguel Tiago

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