Sou suficientemente pessimista sobre a evolução da economia global

George Smith Alexander e Sugata Ghosh*

Nesta sua crítica do sistema, Joseph Stiglitz, Prémio Nobel da Economia em 2001, reconhece que “o sector financeiro gastou enormes somas de dinheiro com dissoluções e acabou por ter êxito. Assim como compraram a desregulação, também compraram o resgate, e agora estão a conseguir dissolver as regras de controlo, embora não tanto como desejavam. O que se podia dizer é que foi um triunfo parcial da democracia. Todavia, não sabemos se essas regras se manterão. A administração (Obama) está do lado errado.

George Smith Alexander e Sugata Ghosh: É evidente que a Grécia não tem maneira imediata de endireitar a sua economia e, na próxima década, outras regiões do mundo poderão experimentar problemas semelhantes. Ainda não chegou a hora das nações governantes se reunirem e cancelarem a dívida global? Está claro que a política que se faz agora na Europa é errónea. A política actual pretende impor uma austeridade extrema. Isso irá resultar numa economia mais débil e com menores receitas fiscais, de modo que a redução dos défices será muito menor da esperada. É um modelo de austeridade que já fracassou na Argentina. A política actual, que diz que acima de tudo o que devemos fazer agora é livrarmo-nos do défice, não irá resultar e irá empurrar o mundo para um segundo afogamento ou, pelo menos, para uma diminuição à escala planetária. Assim, a única alternativa é alguma forma de reestruturação da dívida.
Stiglitz: É evidente que se houvesse confiança na Grécia podia-se ir, passo a passo, com os pagamentos da dívida. O que se pareceria mais com situações já vividas no Brasil e na Argentina. O Brasil tinha uma crise de dívida que acabou por se resolver graças à liquidez. Até se chegou a uma depreciação do valor da dívida. Uma vez que as irracionalidades do mercado se foram diluindo o Brasil começou a crescer e agora ninguém pensa no Brasil como um país com um grande problema de dívida. Julgo que a maioria dos países se encontra numa situação igual à do Brasil. Se os tipos dos juros se mantiverem relativamente baixos e os mercados calmos não irão ter maiores dificuldades.

George Smith Alexander e Sugata Ghosh: Mas o senhor não pensa que qualquer dia a China terá que impedir que persista a dívida americana?
Stiglitz: Não. A dívida dos Estados Unidos é diferente da dos outros países, pois os EUA prometem pagar em dólares e controlam a máquina que os imprime. É assim que sempre é capaz de pagar as suas obrigações como devedor. Pode ser que os dólares cheguem a não valer muito. A questão para os EUA é se os dólares com que pagam valem o que valem quando a China emprestou o dinheiro. O impedimento é esse.

George Smith Alexander e Sugata Ghosh: Enquanto os países podem imprimir notas podemos ir de bolha em bolha. Mas também não podemos pensar regressar ao padrão ouro.
Stiglitz: Têm razão. Compreendemos agora que o padrão ouro carece da flexibilidade necessária e não funciona numa economia moderna. E não conseguimos que funcione outro sistema.
Um dos problemas fundamentais é o sistema do dólar como moeda de reserva. Esse sistema faz com que haja uma excessiva dependência por um só país – os EUA – quando a oferta de moeda da dívida desse país é determinada por problemas internos do próprio país e não por problemas e preocupações mundiais. Uma das principais propostas apresentadas pela Comissão das Nações Unidas presidida por mim foi a criação de um novo sistema de reserva global. China, França e muitos outros países apoiaram-na. Isto tinha que ter prioridade máxima a longo prazo.
A crise actual foi realmente causada pelo sector privado. A lição que tirei foi esta: não podemos continuar a permitir que o sector privado se meta neste tipo de riscos excessivos como se fosse uma coisa banal. Procedemos correctamente em resgatá-lo. Mas agora temos que sofrer as consequências de o termos feito.
George Smith Alexander e Sugata Ghosh: Bem, a Lei da Regulação Financeira serve para limitar os riscos. Todavia, umas regras sufocantes, não seriam capazes de matar partes do mercado financeiro e terminar deitando fora o menino com a água suja do banho?
Stiglitz: Não. Pelo contrário, as regras propostas não são suficientemente duras. O sector financeiro gastou enormes somas de dinheiro com dissoluções e acabou por ter êxito. Assim como compraram a desregulação, também compraram o resgate, e agora estão a conseguir dissolver as regras de controlo, embora não tanto como desejavam. O que se podia dizer é que foi um triunfo parcial da democracia. Todavia, não sabemos se essas regras se manterão. A administração (Obama) está do lado errado.
Por exemplo, uma das cláusulas diz que o governo dos EUA não pode subscrever derivados de alto risco que, no caso da AIG, custaram 170 mil milhões de dólares. Os bancos não deveriam participar em actividades de apostas, e decorre um debate sobre se a AIG se dedicava a apostas ou a seguros. Está claro que se se tratava de apostas, não deveriam estar publicamente garantidas. Uma possibilidade é dizer que se está seguro pela FDIC (Corporação Federal de Seguros de Depósitos, na sua sigla em inglês) não pode subscrever essas políticas de apostas como políticas de seguros. A administração e a FED disseram que isso é uma parte importante da actividade creditícia. Todavia, só um punhado de bancos é que as praticam. Se fosse uma parte importante não se limitaria a um punhado de bancos, praticavam-na a maioria dos bancos.

George Smith Alexander e Sugata Ghosh: Como é que isso afecta o futuro do sector financeiro norte-americano?
Stiglitz: O sistema financeiro norte-americano tinha um volume totalmente desproporcionado em relação ao volume das nossas poupanças. Somos a maior economia, mas a nossa taxa de aforro é muito baixa. Os nossos mercados financeiros eram desproporcionadamente grandes. A razão disso há que ir procurá-la no facto das pessoas acreditarem que os mercados norte-americanos sabiam gerir melhor os riscos e atribuir mais eficazmente o capital. A lição da crise é que isso não é correcto. O que fazem é apostar com o dinheiro dos outros. E isso chegou ao fim.
Falando de aforros, no Japão, o número de pessoas que se reforma é superior ao número de pessoas que aforra. Em breve terão os japoneses que se endividarem no estrangeiro para acudir a esse défice, o que poderá elevar o preço dos juros.
O ratio da dívida japonesa em relação ao seu PIB é de 180%, uns 50% maior que o da Grécia, e a única razão porque o Japão não está em dificuldades é porque não depende do estrangeiro. Para pôr as coisas em perspectiva, a taxa interior de aforro grega é superior à da Alemanha. De modo que essa ideia dos gregos serem esbanjadores não é verdadeira. Agora, se a taxa de aforro japonesa cair, o Japão irá depender do estrangeiro, e isso poderá levar a taxas de juros mais elevadas. Até que ponto, dependerá da confiança dos mercados. Os mercados já demonstraram um tipo de irracionalidade: exuberância irracional e pessimismo irracional. Se os tipos de juros continuarem baixos, dadas as capacidades japonesas, o Japão poderá valer á dívida. Quer dizer, se os tipos globais de juro se mantiverem relativamente baixos e as pessoas conservem a confiança, não creio que o Japão se encaminhe necessariamente para uma crise. Todavia, não é impossível.
George Smith Alexander e Sugata Ghosh: O euro e a União Europeia sobreviverão?
Siglitz: O que se passou nestes meses passados foi decepcionante. A Alemanha estava renitente a prestar assistência e quando resolveu fazê-lo o único marco fiscal que lhe ocorreu foi… não foi o de um fundo de solidariedade, mas de austeridade. Os problemas da Grécia ultrapassam em muito as suas fronteiras, porque as suas exportações mais importantes – como o turismo, diminuíram por culpa da crise global. Tinha um problema estrutural, mas o grosso do défice não lhe causou os seus problemas estruturais mas sim a crise global. Procura-se corrigir os problemas estruturais sem fazer nada sobre a sua situação.
O positivo é que, por fim, a Alemanha e os outros países acabaram por prestar assistência à Grécia. Os benefícios que a Alemanha e os outros países retiram do euro são suficientemente elevados, o compromisso político é suficientemente grande e eu creio que o euro irá sobreviver. Contudo será através dum processo confuso e enredado, o que quer significar muita volatilidade financeira global. Não necessita da união fiscal para sobreviver, mas precisa de algum tipo de assistência e de programas mais institucionalizados que os actuais. Há risco de que não sobreviva e esse é o preço que se exige dos países. Espanha é um bom exemplo, porque antes da crise tinha superavit. Assim ninguém possa acusá-la de libertinagem fiscal.

George Smith Alexander e Sugata Ghosh: O senhor disse que há o risco de outras crises financeiras dentro de cinco ou dez anos. De onde e porquê?
Siglitz: O problema é, evidentemente, muito sério nos países desenvolvidos. Nos EUA poderá haver uma crise de confiança no dólar: já a tivemos antes, nos anos 70.
Mas também poderá vir dos mercados emergentes, porque o que se está a passar é que, para reanimar a economia americana, inundámos o mundo com liquidez, mas isso não se traduziu em crédito nos EUA. Uma vez mais, isso é determinado por uma ideologia de livre mercado que pouco mais ou menos reza assim: dá o teu dinheiro aos bancos e não te preocupes com o que eles fazem com ele.
Contudo, no mundo da globalização o que os bancos perguntam é qual é o melhor lugar para o investir. E chegaram à conclusão que o melhor lugar não é nos EUA. A Reserva Federal está a criar liquidez que vai parar a outros mercados e a FED diz que isso é o seu problema, não o nosso.
George Smith Alexander e Sugata Ghosh: O senhor elogiou o Banco Central da Índia e as suas resistências à liberalização. Isso constitui um modelo para outros países?
Stiglitz: A nossa estrutura de regulação estava muito deteriorada. Pessoas como (Henry) Paulson, que ajudaram a criar o problema, diziam à Índia que tinha que seguir a via norte-americana. Fiquei contente por vocês não terem seguido o conselho de Paulson.
O que eu quero dizer é que, mesmo que vocês estivessem plenamente desenvolvidos poderiam desejar ter mais regulações ou regulações diferentes, ou poderiam ter a capacidade para desenvolver uma regulação maior. Não é apenas que os mercados financeiros sejam mais complicados e difíceis e que vocês tenham então que ter uma estrutura de regulação que se modifique com as etapas do desenvolvimento.

George Smith Alexander e Sugata Ghosh: Dentro de ano e meio haverá que actualizar uma enorme quantidade de tipos de juros hipotecários. O senhor espera outra onda de dívidas e de desordens nos mercados?
Stiglitz: Não se assustem, sabemos que vai acontecer. Sabemos que vai haver mais quebras hipotecárias. Esperamos que em 2010 haja mais que em 2009. As coisas vão piorar. Essa é uma das razões para que eu não seja optimista a respeito da pretendida recuperação. A administração não fez praticamente nada na questão das execuções hipotecárias e desocupações. E há dois problemas. Um, é o da actualização revista das taxas de juro e, falando de greves, as coisas piorarão, quando os tipos de juro começarem a voltar ao normal. O outro problema é que mais de um quarto das hipotecas estão em quebra técnica por causa dos preços imobiliários terem baixado mais de 30%. O que conta aqui é que o governo dos EUA assumiu o papel do maior depositário de hipotecas. Pode mesmo ocorrer que o problema acabe por ser menos um problema para o sector privado do que para o sector público, todavia não sabemos muito bem, porque isso faz parte da obscuridade com que se levou a cabo o resgate.

George Smith Alexander e Sugata Ghosh: No começo do ano novo chinês a China subiu os tipos de juro. Há receio dum estoiro na China, muitas das empresas juntas em infra-estruturas não têm benefícios suficientes. Não acha preocupante?
Siglitz: Há duas coisas na China que são diferentes do que se passa noutros países. A primeira é que está sentada sobre umas reservas fronteiriças nos 2,4 biliões de dólares; isso dá-lhe um pequeno almofadão para enfrentar o problema das dívidas más. A segunda, é que quando uma enorme economia está a crescer 10% ao ano a preocupação pelo que possa constituir um excesso de capacidade muda espectacularmente. O que está à frente do teu olhar desaparece antes que te possas precaver. É verdade que adoptaram para a sua economia um modelo do lado da oferta, e funcionou sobretudo devido ao êxito do crescimento orientado para a exportação. Puderam incrementar a oferta e há uma procura global que nunca deixou de parar. Esse modelo funciona agora fora de tempo. Eles sabem-no e estão em vias de reestruturar a economia e penso que a vão conseguir. Contudo, esse é o maior desafio.
George Smith Alexander e Sugata Ghosg: Dado o declínio dos EUA e da Europa, as economias orientadas para a exportação vão enfrentar um problema.
Stiglitz: O modelo orientado para a exportação encontrará verdadeiras dificuldades. A Índia e a China contam com uma enorme vantagem, uma vez que dispõem de um grande mercado interno por abastecer e agora começam a fazê-lo. Por isso sou optimista quanto à Índia e à China. Particularmente com a China, cujo crescimento económico é agora muito intenso em recursos. A urbanização, o apoio do aço, o consumo alimentar: haverá uma grande procura de mercadorias, o que beneficiará outros países em vias de desenvolvimento. O seu crescimento ajudará a América Latina e alguns outros mercados emergentes. Mas não basta para salvar a Europa e os EUA. Na realidade, o que fará é criar-lhes um problema, porque os preços das matérias-primas subirão.
George Smith Alexander e Sugata Ghosh: No seu livro “Os Felizes 90: a semente da destruição” (2003) o senhor esperava que a futura administração dos EUA enfrentasse os problemas, a fim de melhorar os próprios EUA e o mundo. Todavia, há possibilidades?
Stiblitz: Os EUA estão muito absorvidos pela crise e pela política interna…
Foi Gordon Brown quem tomou a iniciativa do G20. Foram Brown e Sarkozy quem disseram que necessitávamos dum marco de regulação global. Nós, não queremos nem ouvir falar de uma moeda global de reserva enquanto tivermos que pedir emprestado um bilião de dólares em cada ano, não queremos deitar a perder esta pechincha enquanto haja pessoas dispostas a comprar os nossos títulos da dívida pública.
George Smith Alexander e Sugata Ghosh: Homens como o senhor e Paul Krugman fornecem munição intelectual aos ministros para intervirem no mercado. Sente-se moralmente obrigado pelo facto de as coisas não estarem a ir precisamente bem?
Stiglitz: Uma boa parte do nosso discurso está orientado para aquilo que chamo uma intervenção robusta. Quero dizer com isto intervenções bastante simples para que não tenhamos que nos preocupar muito com o seu acerto apurado, ainda que haja um mau presidente dos EUA. Acabamos de ver que o governo pode ser muito disfuncional. O Paul insiste muito mais na intervenção robusta que funciona mesmo no caso de esgotamento institucional. Mas, obviamente, isso radica-se numa visão dinâmica da regulação e da fiscalidade. Qualquer sistema está submetido a alterações constantes, de modo que se cometem erros. Mas então temos que dizer que estamos preparados para corrigir os erros quando estes se tornam evidentes.

* Colaboradores habituais de The Economic Times
Esta entrevista com o Prémio Nobel da Economia Joseph Stiglitz foi publicada em http://economictimes.com/
Tradução de João Manuel Pinheiro para “Odiario.info”

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por Blogue da Emigração Publicado em Economia

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