caricatura (da realidade)

Imaginem uns tipos balofos, fumando uns charutos, sentados à mesa bem guarnecida de um banquete. Ao fundo toca uma pequena orquestra de câmara para “dar ambiente”. O faisão estava óptimo, a corsa divinal, o caviar foi-se num instante. Os empregados retiraram da mesa os pratos com a velocidade e prontidão com que os puseram sobre ela. Nunca na vida poderiam sequer ferrar o dente em semelhante carne ou iguarias.

Lá fora, as mudanças questionavam o facto de esses tipos, os balofos, irem mandando no mundo sem prestar contas a ninguém. Em alguns lugares do mundo, os servos e os famintos levantavam o dorso e exigiam a “democracia”. Os senhores, antes que os apanhassem em falso, pensaram:

balofo 1:”que mal terá a democracia, desde que nós sejamos os eleitos?”

balofo 2:”tem toda a razão meu caro amigo. como nunca pensámos nisso?”

balofo 3:”basta então garantir que votem em nós?”

balofo 4:”não. nem sequer nos preocupemos com isso. porque não haverá outra opção real. apresentemo-nos nós, fingindo ser diferentes, e proibiremos todos os restantes”

balofo 1:”mas então isso não será democracia… nem mesmo fingida.”

balofo 4:”tem toda a razão, caro amigo…” enquanto bafejava o charuto e bebia a última gota do seu cognac – “arranjaremos facilmente maneira de tapar o caminho a outros… a não ser, claro, os que nos comem à mão.”

balofo 2:”de facto, somos donos de tudo. facilmente seremos os únicos na corrida. ou pelo menos será fácil criar essa ilusão. ao fim e ao cabo somos donos das rádios, dos jornais, seremos também donos das TVs. Somos donos das escolas, das fábricas, dos campos. não será difícil.”

balofo 3:”muito bem. para que a democracia seja convincente não poderemos ser um só partido. Farei eu próprio o PS. proponho o amigo para fazer o PSD, semelhante em tudo mas diferente! (piscando o olho) e sugiro que se cubra todo o arco das sensibilidades, sendo o amigo o CDS e o senhor, se não se importasse de fazer essa figura, seria o BE.”

E foram-se rindo e gracejando sobre como iludiriam as massas e usariam a democracia para ir ainda mais longe, agora “democraticamente legitimados”.

O que não sabiam é que nenhuma barreira faria cair a persistência, a preserverança e a coragem dos “outros”
que não se sentavam naquela mesa e não lhes comiam à mão.

Miguel Tiago

(Música: Mário Pinto)
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4 comentários a “caricatura (da realidade)

  1. Um grande olá a toda a equipa que labora neste blog! Este texto está óptimo e muito acessível para a compreensão da maioria.São textos destes que ilustram rápidamente e de forma eficaz, a crua e dura realidade dos que produzem.
    E antes que me esqueça tenho que dar tambem os parabens ao autor da musica, está um espectáculo!
    Um grande abraço e até breve,é só passar o mês de Agosto e vamos encontra-nos no pavilhão da emigração, que se situa no nosso terreno lá para os lados da Atalaia…

    Sid

  2. Como me entristece ver que é tão real o “quadro” que apresentas… Depois das conquistas do 25 de ABRIL, de tudo por que lutámos, são esses “balofos” que se estão a aproveitar e a pisar-nos cada vez mais fortemente. Mas não vão levar a melhor, porque ESTAMOS DE OLHOS ABERTOS E ERGUER-NOS-EMOS, FAZENDO-LHES BARREIRA. VENCEREMOS! Um abraço.

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