O perigo


Prematuro mas catártico, o motivo que justifica este texto.

Emigrante, trabalhador e militante de um partido político, que podia ser qualquer se fosse outro o autor e/ou as suas razões, mas, uma vida, outra, única, e tantas. Decidi debruçar-me sobre os efeitos que a emigração pode ter no indivíduo e seu entorno, tratando a questão desde a infância e as suas diferentes situações, à despersonalização mais profunda e à destruição do Homem que se empenha em, por vezes aproveitar, mas, sempre, sofrer o capitalismo.

O léxico, que empregarei, será aquele que considere oportuno e que, também, dentro do escasso conhecimento linguístico que se poderá constatar, proporcione da forma mais abrangente uma leitura fluida. É importante antecipar que o tema obriga a utilização de determinada terminologia de síntese que, nalgum caso, por não se tratar de apresentar sinónimos, estenderia à extenuação deste que escreve e daquele a quem possa interessar a sua explicação.

Finalmente, e para entrarmos em matéria, não está demais informar que não conservo apetência nem aptidões para o ballet.

As crianças, em idade pré e escolar:

São por demais conhecidas as contrariedades que experimenta um indivíduo quando certas peculiaridades o colocam fora do endogrupo, tornando-se estas mais acentuadas quando este as encontra numa etapa de formação da sua estrutura cognitiva, neuroanatómica e/ou neurofisiologica, no individúo novo, impactando na sua personalidade adulta a necessidade alostática de debelar repetidamente fronteiras de cariz estereotípico. Por outra parte, ainda assumindo que termine finalmente por se integrar socialmente, no que ao âmbito familiar concerne pode também constituir uma fonte de cisão com a cultura parental, enquanto o pai, adulto, experimentará outras complicações que mais à frente se tratarão mas que raramente passam pela plena integração, o filho, chega por vezes a revelar-se como articulação entre duas culturas, fundamentalmente quando sobrevaloriza a receptora menosprezando a de proveniência. Nesta situação, os roles familiares chegam frequentemente ao limite de se inverterem entre pai e filho, gerando assim situações de insucesso escolar, toxicodependência, condicionamento social, violência ou mesmo uma capacidade imunológica e/ou aprendizagem diminuídas.

No relativo às situações negativas geradas, também no caso antagónico, no qual se verifica um apego exacerbado à cultura de proveniência em detrimento da adoptiva, estas se podem desencadear.

 

Sem procurar sistematizar critérios de avaliação nem tão pouco teorias sem tempo para sustentar, estas constatações tomam base em diversos estudos realizados entre 1979 e 1990, os quais apontam que a situação socioeconómica é uma constante proeminente no sustento destas adversidades.

Assim mesmo, referindo-nos agora a factores atenuantes ou promotores das diferentes situações acima descritas, devemos observar certas distinções entre: descendentes de emigrantes em que ambos progenitores compartem naturalidade, idioma, grau de aculturação, situação laboral ou até formação, todos estes aspectos nos mais diversos níveis e que actuam de forma exponencial; onde um dos elementos do casal é oriundo da região; o factor de multiculturalidade dentro do qual amadurece a criança ou até, as suas afiliações comuns, ou não, à generalidade.

O bilinguismo intrafamiliar

O bilinguismo pode resultar favorável, mas, da mesma forma que a mente cria um sistema no qual os símbolos se podem intercambiar, favorecendo a organização do pensamento, este  poder-se-á mostrar desiquilibrante quando a família não é capaz de plasmar o peso específico na utilização do idioma no meio familiar, similar ao do entorno infantil.
Terminado este apartado, apenas mencionar alguns dados quantitativos, tomando como referencia a população emigrante portuguesa,e do magrebe, em França.

Sabemos hoje que, em 1985, a metade dos expedientes de tutela temporária e 20% das solicitações de custódia foram relativas a este colectivo. Por tal, transformado, neste caso, num problema cultural, psicológico, mais que meramente linguístico, o fenómeno migratório guarda também relação directa com duas etapas infantis: A patologia carencial, tanto somática como psicológica, que apresenta maior incidência na idade pré-escolar, maximizando-se mais tarde, no período de latência os problemas escolares. Já na adolescência, momento de consolidação, verificam-se conflitos de identidade podendo estes ser potenciados pelo biculturalismo, razão maior na explicação dos transtornos apontados.

 Entre 1980 e 2010, depois da integração na U.E., os emigrantes Portugueses diminuíram o seu fracasso escolar, com rácios similares aos espanhóis, distinguindo-se notavelmente dos estudantes de países africanos. Também assim, a inserção laboral familiar ou a consideração social sobre a nacionalidade, sofreram certa melhoria (aqui também se pode encontrar certa influencia da revolução de Abril), não havendo podido contudo eliminar quadros semelhantes aos relatados.

O Emigrante adulto:

Referindo o continuo entre os dados anteriormente utilizados e os indicadores actuais, constata-se que subsistem enormes dificuldades na afirmação de igualdade entre as populações de estudo e os cidadãos nacionais, persistindo a clivagem social, reforçada pela aversão condicionada resultante da percepção local da realidade do país de origem e pelos discursos e medidas que adoptam governos de países receptores, submetidos a ditames de carácter imperialista que legislam como subversiva a defesa de culturas que, ainda diferentes, são indubitavelmente importantes para a estrutura interna do trabalhador, facto que por si só destitui em certa medida de vontade própria e identificação aqueles que encontram como solução aceitar os desígnios de empregadores nacionais, com similar, ou até menor formação (não só académica ou profissional) e, vínculos contratuais onde a precariedade prima pela constância. Concluímos neste caso que, apesar do passar do tempo, da assunção da diferença pelos migrantes, na Europa – para não divagarmos sobre a problemática da população negra norte americana depois de mais de duzentos anos de lutas -, actualmente, também a condição de nacionalizado determina maior exposição a distúrbios psicológicos.

Por outro lado, tratando-se de trabalhadores que recentemente se tornaram emigrantes, observam-se assim mesmo experiências paralelas, mas, neste caso concreto, não carece de necessidade a consideração do incremento nos direitos, liberdades e garantias que desfrutavam na sua terra (voltando aqui, apesar do fascismo demagógico actual, a mencionar o 25 de Abril como enorme conquista civilizacional), revelando-se a situação prévia à equiparação, muitas vezes exo-distinção positiva, com o colectivo analisado no início do texto.

Interpretando esta amálgama de contrariedades desde a neurociencia, não reduzindo os seus efeitos ao já conhecido sindroma de ulisses, que passa por ser uma tentativa de impedir o profundizar da introspecção na procura dos motivos reais que precedem este fenómeno, delimitando por consequência a sua dimensão, mais, por tomar como base de estudo populações oriundas de regiões geográfica e culturalmente radicalmente diferentes das receptoras, servindo-nos para o explicar a sua suficiente definição wikipédica (em Espanhol, por não existir em Portugal um cuidado sobre esta matéria):
“El Síndrome de Ulises, también conocido como síndrome del emigrante con estrés crónico y múltiple, es un síndrome de naturaleza psicológica que se caracteriza por un estrés crónico que viene asociado a la problemática de los emigrantes al afincarse en una nueva residencia. El nombre viene variado del héroe mítico Ulises el cual, perdido durante muchísimos años (diez según Homero) en su camino de vuelta a Ítaca, añoraba su tierra de origen pero se veía imposibilitado de volver a ella.
Según su descubridor, el doctor Joseba Achótegui, psiquiatra del SAPPIR y profesor titular de la Universidad de Barcelona, es una situación de estrés límite, con cuatro factores vinculantes: soledad, al no poder traer a su familia; sentimiento interno de fracaso, al no tener posibilidad de acceder al mercado laboral; sentimiento de miedo, por estar muchas veces vinculados a mafias; y sentimiento de lucha por sobrevivir. Se calcula que en España puede haber unas 800.000 personas afectadas por esta enfermedad.
El síndrome de Ulises no sólo actúa por sí mismo sino que, como toda situación de estrés, contribuye a acelerar o desarrollar ciertas patologías que podían hallarse latentes en aquellos que los sufren. Por ejemplo, pacientes con predisposición a desarrollar brotes psicóticos pueden ver acelerada o aumentada su aparición a causa del estrés, de ahí que la tasa de estas patologías sean mayores en el colectivo de inmigrantes que en la población general.”

Utilizaremos, deste, como reforço da linha de pensamento aqui apresentada, a constatação de patologias, psicoses, à qual somaremos a percentagem de emigrantes no número de pacientes que atenderam a consultas de saúde mental no serviço de saúde Galego: 12.5%. Resultado extraordinariamente elevado sabendo que não houve qualquer retorno massivo daqueles que emigraram.

Assim, a causa mais provável deste tipo de psicopatologias parece residir na perda do contacto com diversas características que, em conjunto com a herança genética, constituem o indivíduo: paisagem, idioma, esquemas de movimento, clima, palatabilidade, arquitectura, vestuário, leis, entorno social, etc, e, assumindo outras, para as quais não existem heurísticos; resgatando a óptica evolucionista, poderíamos afirmar que se torna vital para o indivíduo entrar numa situação depressiva, momento no qual o organismo prioriza o pensamento e a análise sobre novos problemas que devem ser resolvidos em ordem a permitir a adaptação ambiental. Nesta situação, o suicídio é uma opção muito tangível em fases mais agudas e, não esquecendo que não existe inserção no meio e que por tal as possibilidades de uma pseudo-terapia de grupo são escassas, aparece no recurso ao especialista uma forma de solucionar, quase sempre quimicamente, ou atenuar, as consequencias do paciente se ostracizar. Os dados, porém, indicam que só uma ínfima percentagem dos afectados recorre a soluções médicas (por questões que vão desde o condicionamento social à nacionalidade do terapeuta), potenciando, com o decorrer do tempo, o agravamento da situação. Consequentemente, a perda de volume de áreas e funções neuronais fulcrais – o hipotálamo por exemplo -, deprimindo também a capacidade cognitiva, intelectual ou de memória, desvincula-o da realidade e promove, assim derivando habitualmente num quadro de esquizofrenia, problema com o qual voltam ao seu país ou perecem na aventura.

Estagnação ou evolução:

Como é fácil perceber, suprimindo a sua vontade, grande número de emigrantes atravessa esta fase sem sequer se aperceber, algo que guarda relação com outras capacidades do Homem. Os mecanismos mais usuais para preservar o equilíbrio homeostático, muitas das ocasiões com êxito, passam por aderir ou formar associações que pugnem pelos interesses comuns daqueles que compartem rasgos culturais e, dependendo da adquisição de consciência sobre os motivos pelos quais se encontra atravessando determinadas dificuldades, a militância política.

Conclusão:

Exceptuando a militância política activa, as medidas de evitação ou escape, ou a dissonância cognitíva descritas, ou até a construção de uma casa na terra, as estâncias periódicas no seu país, etc., não se podem entender além da opressão.

Enquanto emigramos procurando a “sopa feita”, noutros casos só o pão, sensibilizados por uma melhor compensação pela mais-valia, raramente questionamos o modelo que cada dia mais acicata as desigualdades. Esta Europa a duas velocidades, o concentracionismo (que subsidia o arroz por hectare em lugar do quilo de arroz semeado), a conveniente destruição do tecido produtivo nacional, a aposta pelos baixos salários (algo interessante em outro paradigma), são estratégias defendidas com vista a fomentar a necessidade de emigrar dos Portugueses e proporcionando assim aos países ricos uma força de trabalho dúctil, subserviente, igual àquela que permanece no seu país mas com uma retribuição menos má. Ainda assim, outro aspecto importante a não esquecer: a fuga de potencial intelectual, técnico e artístico e cultural.

Países como Portugal, sem o esclarecimento e a participação do povo, afrontam a ameaça de se assemelharem a um aviário de mão-de-obra barata e descartável, onde, neste caso, se pode apreciar um dos mais elevados índices de psicopatologias do mundo e, no qual cerca de metade da população experimentou já, no passado recente, transtornos psicológicos (considerando apenas casos censados).

Breve quanto possível, tratando de obviar elementos que, embora importantes, pouco ou nada compatíveis seriam com o tratado, espero haver contribuído para alertar quem ainda o não está para as consequências que da fuga de nós próprios, na procura da felicidade, podem advir.

Mário Pinto

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por Blogue da Emigração Publicado em Sem categoria

3 comentários a “O perigo

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