Alves Redol, Avieiros e as manifestações

(…) Não me compadecia em repisar histórias no almofariz da mediocridade, conhecia o perigo das vozes alheias que ainda me dominavam, estava longe de estabelecer o equilíbrio entre a paixão e a lucidez. entre o coração quente, em fogo, e o raciocínio quase matemático, empreendedor e terso. O domínio da efabulação, a chave da vida inteira de cada personagem, o tom justo, mesmo quando exaltado, a simplicidade da palavra. A palavra-pele que cobre cada passo de um fecundo emaranhado de sugestões inquietas e inquietantes. a palavra-pele que só ela pode viver ali, exactamente ali, como a das minhas mãos ou a das tuas, que enfeixa músculos e tecidos, sangue, vida.
Confesso que ganhei medo ao papel branco. Medo autêntico. Com tantos fantasmas à minha beira, atormentei-me. Longos meses. As primeiras páginas de Fanga, o romance que se lhe seguiu, queimaram-me os nervos.
Foi bem longa a tortura. Mas andei com a sorte pela minha banda, ao ser visitado por angústia tão funda. Aprendi com ela a porfiar no trabalho e a compreender que as palavras se forjam em nós, e com o tempo, e com a dor, e com a alegria, que não são as mesmas em cada poeta ou romancista, onde perdem ou ganham ressonâncias, que deveremos contê-las ou soltá-las ao sabor da invenção, e logo da análise, sem que o contexto esmaeça ou se canse na jornada. Na longa jornada do confronto.
Sei o que ainda não atingi de tudo o que me parece necessário. E passaram trinta anos. (…)

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por Blogue da Emigração Publicado em Sem categoria

3 comentários a “Alves Redol, Avieiros e as manifestações

  1. Como mora longe o 25 de Abril..!.Hoje somos, de novo, o estado velho de outrora. Indignado pela mentira dos que nos governaram e governam eu protesto a liberdade que nos roubaram. Vou arregaçar as mangas um dia oferecer a vida que me roubaram em nome dos que morreram a sonhar pela revolução.

  2. Com o ano de 1976 nasceu o que nós pensávamos não voltar a surgir, a fome, a miséria, a mentira, os negócios escuros,a falsidade,a corrupção, o roubo praticados pelo grande patronato e a fuga aos impostos, agora págos pelo povo trabalhador e pelos reformados, as falcatruas engendradas por aqueles que pretendem voltar aos velhos tempos como os banqueiros e o grande patronato. Não foi para isso que Abril chegou, foi para acabar com aqueles que se aproveitaram da ingenuidade deste povo, mas:
    ACREDITO QUE ESTE MESMO POVO ACABARÁ POR OS DERROTAR

  3. Redol, um escritor com o povo no coracao da escrita…Lembro-me, quase como se fosse hoje, do dia do seu funeral, de Lisboa para Vila Franca de Xira, uma jornada de luta, com o pidesco farejar por entre os acompanhantes…que tempos aqueles…Viva, viva para sempre Abril!

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