O MITO DA INTEGRAÇÃO E OUTROS

Com a mudança de governo e as inevitáveis mudanças dos responsáveis por vários cargos, surgem as também inevitáveis alusões ao sistema de Ensino Português no Estrangeiro e às possíveis soluções para melhoria do mesmo.

Deixando de parte o fato, inegável, de que o EPE desde há muitos anos deixou de ter melhorias e agora se encontra em patente degradação, resultante da nova rede de ensino, orientada unicamente pelos princípios economicistas do Instituto Camões, é legítimo fazer a pergunta sobre o que se entende por “integração”, termo que tinha deixado de ser utilizado e que agora renasce como um tipo de remédio santo para sanar os males – e muitos são eles – que afligem o EPE.

Integração de quê e para quê? E para quem? Com que objetivos? Até hoje, nunca houve respostas concretas a estas perguntas.

Integração é realmente uma palavra bonita, de caráter positivo e de cariz político correto, por isso é atirada para o ar e apregoada como solução para situações que aqueles que indiscriminadamente a utilizam nunca se deram ao trabalho de conhecer.

Se por “integração” se referem à criação de cursos de Língua Portuguesa, como língua estrangeira, nas escolas dos países de acolhimento, é útil esclarecer que, e felizmente, grande parte dos alunos dos atuais cursos de Língua e Cultura Portuguesas domina, de novo felizmente, a sua língua de origem de modo muito razoável, não necessitando por isso de a aprender como língua estrangeira, o que seria aliás extremamente desmotivante, pois como falantes regulares da língua teriam de “voltar atrás”e começar pelas noções básicas, pois que,criando-se cursos de Português como língua estrangeira, teriam estes de começar pelo nível de iniciação.

É também necessário levar em conta que a tão apregoada “integração” não se encontra livre de propósitos economicistas, pois a existência do Português como disciplina no currículo escolar de um ou vários países seria um óptimo pretexto para encerrar cursos já existentes a cargo do governo português, passando a responsabilidade económica para as entidades estrangeiras,o que, convenhamos, iria ao encontro dos desejos de vários elementos políticos, dado que seria uma maneira de conseguir fugir àquele incómodo ditame da constituição portuguesa, que determina o direito a cursos de língua e cultura para luso-descendentes, pertencendo o encargo ao governo português.

Será importante lembrar, relativo a “integração” o que já sucedeu em França, nos fim dos anos oitenta, com a abertura, por duas escolas secundárias em Paris,de cursos de Português como língua estrangeira.

Tal procedimento foi imediatamente usado pelos responsáveis em Portugal para encerrar grande número de cursos de 2° e 3° ciclo, com o pretexto que os alunos de nacionalidade portuguesa já poderiam aprender a sua língua com o estatuto de língua estrangeira no sistema francês,o que obrigou vários pais a recorrer ao ensino associativo, pois desejavam que os seus filhos fizessem progressos e não retrocessos na aprendizagem.

Os referidos cursos, de tão vistosa”integração”, há muito que deixaram de existir, por falta de interesse dos alunos franceses em aprender português.

Há também quem apregoe a “integração” como alternativa preferível aos cursos que funcionam na parte da tarde, depois do horário escolar normal,e em que alunos oriundos de várias localidades e várias escolas se juntam numa escola central para assistir às aulas de português.

Também aí, infelizmente,é obrigatório esclarecer que o “remédio integração” não resulta, dado que a comunidade portuguesa se encontra muito dispersa,havendo muitas vezes em cada escola apenas um ou dois alunos portugueses,o que impossibilita lecionar os mesmos nas escolas que frequentam e muito menos integrar as aulas de portguês no horário normal.

Embora o ensino paralelo não seja uma solução ideal é, devido às condicionantes existentes, o único modo de muitos jovens e crianças filhos de portugueses poderem adquirir e melhorar os conhecimentos da sua língua e cultura de origem.

Haveria, realmente, uma possibilidade de integração – desta vez sem aspas – das aulas de português no horário escolar normal dos alunos. Bastaria que, numa escola em que houvesse, um mínimo de 7 ou 8 alunos portugueses, se pudesse formar um grupo letivo com direito a algumas horas de aula por semana.

Tal procedimento, que traria grandes vantagens para os alunos e também para os pais, pois evitaria tempo perdido em deslocações a outra escola, tem possibilidades praticamente nulas de se tonar realidade, pois o número mínimo de alunos para formar um grupo letivo tem subido constantemente ao longo dos anos, de 10 para 15 e, atualmente, segundo as diretrizes do IC, bastam 3 horas para leconar 18 ou 20 alunos de todos os níveis.

Tal significa que uma integração no horário, que traria benefícios inestimáveis ao alunos, falhou, falha e continuará a falhar por um único motivo, o aumento de custos que implica.

Realmente, é muito mais fácil integrar o Português no currículo e deixar que sejam outros a arcar com as despesas, e mais fácil ainda, como preconizado por um político responsável pelas comunidades, aproximar mais o sistema de ensino na Europa ao de fora da Europa.

Claro. No sistema fora da Europa, isto é, Canadá, Estados Unidos, Austrália, etc, o ensino é pago pelos encarregados de educação, sem sequer um subsídio do governo português e sem qualquer tipo de certificação reconhecida.Sistema muito desejável, devido aos custos baixos ou nulos.

Há quem diga que Portugal é um país pobre. Talvez seja. Mas o que é, sem dúvida, é um pobre país, com políticos que não prezam ,não respeitam e não dão valor à sua própria língua e cultura além-fronteiras.

Nuremberga, Alemanha

23 de Julho de 2011

Maria Teresa Duarte Soares

Professora de LCP

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por Blogue da Emigração Publicado em Sem categoria

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